Ela sabia que aquele era seu último ano de vida e ansiava
por ele.
Não que houvesse algo de grandioso em sua existência, muito pelo
contrário. Uma mulher de trajetória difícil como a da maior parte da população,
de trabalho árduo e sorriso no rosto. Sem feições marcantes, com a cabeça
deitada no encosto de cadeirante do ônibus, acredita que observa a paisagem
dura e cinza do centro da cidade, mas se enxerga no reflexo do vidro.
O pensamento que vem como um salto: o quão digno seria
morrer agora?
Muito digno, ela conclui. Afinal, ela estava bem. Morrer significava não se preocupar nunca mais em como
pagar as contas, o aluguel, a comida do mês e ser finalmente livre. Livre dos medos que a rodeiam por uma
vida. Livre das dores vividas. Livre das dores que virão. Finalmente ser aquilo
que sonhara. Do mundo.
Ela, que nunca teve poesia no riso, mas carregava um olhar
de gema lapidada de tanta intempérie. Aprendeu a ser bondosa e aquele seria seu
legado. Amar a todos que amou sem distinção tentando nunca devolver ao mundo as
dores que carregava consigo. As vezes escorregava no seu ideal, porque acima de
tudo era humana. Como qualquer um.
Ocorreu-lhe que, pela primeira vez, não temia mais a morte.
Nem sua narrativa ora colorida, ora melancólica e então pensou o temido
pensamento: quão digno seria morrer agora? E teve medo. Não de morrer, mas do
pensamento sobre a morte, em como ele veio naturalmente e ali ficou. Quantas
cartas escreveria, livrando a todos das culpas e anseios, sem lhes negar as lágrimas
que são por direito àqueles que perdem alguém, como dizem... cedo demais.
É que talvez o céu não a pertença ou talvez deus seja
realmente misericordioso e, enxergando toda a bondade naqueles olhos lapidados,
a permita no céu. Ela teria da morte, o que a vida nunca lhe deu: a chance de
ser uma exceção.
Pensa, ainda refogando os restos que estavam na geladeira,
que talvez nunca tenha a coragem para morrer heroína de si mesma. Talvez não
tenha coragem de se escolher ao invés dos outros.
Será que a cerveja congelou? O pensamento a interrompe. Ela
lembra do medo de morrer. Para onde foi? Talvez seja a vontade que tenha desaparecido.
O que lhe enche os pulmões de ar?
Ela que é uma incógnita que ocupa tantos lugares sem se
entregar a nada.
Como Macabéa, a mulher sem alma que morreu atravessada pelo
cotidiano após descobrir seu futuro. O futuro dela acabara ali, após uma fração
do presente. Então ela pensa porque precisa se entregar à coisas que não a preenchem, só a sugam e engolem?
Talvez não precise. O que ela precisa é abrir mão. De si e
dos outros e da sua vontade de tornar o mundo um lugar diferente. Da sua
irritabilidade com as pessoas que não questionam. Da exasperação que corroí o
peito por entender que as coisas não vão mudar. Não agora.
Ela que desistiu do mundo e só então percebeu que, assim, havia
desistido dela também e por isso sabia que aquele era seu último ano de vida.
Amém.
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