fazia tempo que não sentia os pensamentos correrem livres entre meus olhos, por dentro de minhas narinas, passando pela minha boca, atravessando meus ouvidos e escorregando na minha lingua.
que falta fazia não temer meus pensamentos!
percebi que, ainda durante o banho, chamei isso de felicidade sem euforia. Eu me reconhecia feliz de uma felicidade já conhecida e ainda sim tão nova a ponto de me causar estranheza.
me vi em um dilema entre terminar aquele banho que desejei durante todo o dia ou sair ainda ensaboada para escrever sobre a felicidade - que talvez fosse clandestina para Clarice.
terminei meu banho, na certeza de que essas palavras eram tão minhas que jamais as perderia de mim - ousadia essa que pratico quando tenho muita fé na vida e no mundo - mesmo sabendo que já perdi palavras que foram mais breves que amores de carnanal.
que agonia a felicidade traz.
terminei meu banho, organizei algumas coisas que ainda estavam espalhadas pela casa após a viagem, me recusei a lavar as vasilhas do almoço que estavam na pia e me recusei a escrever para que o outro lesse. Depois de todo este des-ritual, deitei em minha cama e abri meu computador para te contar que sim não lembro mais das palavras que tinha durante o banho, mas ganhei outras palavras tão melhores que aquelas que a euforia veio para contar que senti uma felicidade sóbria quando me dei conta que meus pensamentos corriam soltos pela minha cabeça.
ufa.
falei mais cedo com uma amiga uma coisa bem bonita assim sobre o que eu estou vivendo: eu não quero mais ter medo de me orgulhar, mesmo quando as coisas desmoronarem. Porque eu aprendi a desejar e correr de braços abertos aos meus sonhos. Me importa o resultado sim, porque eu quero concretizar. Mas me importa mais reconhecer que eu estou consumando o desejo que habita em mim, naquilo que depende de mim.
que bonito isso. almejar. criar maneiras. correr atrás e, se ainda der sorte, ser pega desprevinida durante o banho por uma felicidade sóbria.
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