Talvez este esteja sendo o processo mais dolorido pelo qual passarei, até hoje. É que vez ou outra a culpa me assombra tentando me convencer que eu deveria estar abrindo mão de mim pelo outro, como se o preço de me trair valesse a pena. Eu tenho muito medo de decepcionar pessoas, mas esse medo nunca me impediu que eu o fizesse. A expectativa da expectativa é úlcera e corrói de dentro pra fora as camadas das relações. É que ouvi uma vez que o estômago é o órgão mais sentimental que existe e sendo criada desde cedo a base de pantoprazol e endoscopia, não pude dizer nada senão concordar. Apesar de que, de alguns anos pra cá, tenho sentido muito com a pele também e sendo este o maior órgão, o que junta tudo, o que regenera, o que renasce, talvez precisemos mexer nessa classificação sentimental. Um outro dia.
Tenho escrito superficialidades, por sentir coisas que sei
que ainda não estou pronta para mergulhar. Tenho me arrependido de dizer. Desde
que aprendi a verbalizar o que sinto com menos medo – mas ainda com algum resquício
de receio que acredito que nunca me abandonará - tenho dito por demais e me pergunto se existe
um equilíbrio e imagino meu coração em uma balança antiga, sempre pesado
demais. As superficialidades que trago aqui dizem sobre as alegrias que ando
coletando, mas a verdade é que não estou pronta para olhar para trás e enxergar
aquilo que ando deixando pelo caminho. Eu não estou pronta para abrir mão, mas já
não os trago em meus braços mais. O que fazer com o coração que almeja abraçar o
mundo e a si mesmo? Eu não sei. Sei que não há como. Abraço o mundo e não me
aqueço ou escolho àqueles que trago junto ao peito enquanto me abraço também.
Muito dizem sobre o amor próprio e sobre se escolher, o que
eu ainda não li por aí é que as vezes isso é uma merda. Um merda que vale cada
lágrima e cada pergunta. Não vi escrito em nenhuma peça de design que tem dias
que você vai chorar, tem dias que você vai se perguntar se você vale mesmo
todos os sacrifícios que está fazendo, tem dias que você vai querer que todas
as pessoas enxerguem apenas o que há de bom em você e tem dias que você vai se
questionar se seu valor realmente não está em como você faz os outros se
sentirem. Cada uma dessas perguntas, me faço no espelho, encarando as pequenas
marcas que trago por tentar me encaixar por tantos anos em tantos espaços
distantes demais de mim. Cada uma dessas perguntas, me faço ao lembrar dos meus
amores, pensando para quantas pessoas me entreguei por inteiro e depositei
expectativas de que fossem se entregar também. Assim, vagarosamente, como quem levanta
sonolenta da cama e abre as cortinas aos poucos para que a luz ilumine sem doer
as vistas, entendo que as minhas expectativas são minhas responsabilidades e a
expectativas dos outros a eles pertencem e começo a me desfazer da culpa em não
tentar ser suficiente o tempo todo, a respeitar a partida daqueles que precisam
ir, a acolher a estadia daqueles que escolhem ficar. Mesmo que em alguns
momentos isso doa e eu duvide que eu mereça amor, eu me recorde que mereço sim
e por isso começo cultivando esse sentimento dentro de mim, ainda que em alguns
momentos eu mate girassóis.
Há tantos anos, escrevi que era pássaro preso em gaiola de
portas abertas e sonhei pular. Talvez a grande coragem não esteja nos saltos de
grandes alturas, mas sim em começar a conhecer e cuidar de suas asas. Confiar
em si mesmo e na sua capacidade em se sustentar e na sua vontade que mora
dentro. Não ser mais uma mulher de espelho no rosto, mas de olhos, bocas e
nariz feitos de vitral, porque se reconheceu nas rachaduras, abraçou seus cacos
e fez deles arte que no sol colore dentro e fora. No fim, não há arrependimento
em me escolher... há saudades, mas eu aprendi que a saudade é instrumento da
memória e enverniza tudo que é bom pra durar uma vida.
Sente saudade quem viveu e quem amou e quem errou e quem
aprendeu.
Molho os pés na água pra me ambientar. Nem tudo é sobre
mergulhar de cabeça.
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