Gosto de pensar na lagarta, fechada em seu casulo. Apesar de, particularmente, não gostar da metáfora da borboleta para as mudanças porque acredito que grande parte das mudanças não seja sobre uma estreia no mundo com asas e cores. Acredito que elas sejam feito cobras rastejantes que trocam de pele quando a anterior já não lhe cabem todos os órgãos, deixando sinais somente para os olhos atentos ao caminho e que revelam: ali já passou uma serpente que nunca mais passará.
Volto à lagarta fechada em seu casulo. Imagino-a no silêncio de seu interior, ouvindo o mundo lá fora: carros, buzinas, pássaros procurando parceiras enquanto a lagarta fica no seu pequeno espaço em sua própria companhia.
Imagino se ela se arrepende de estar perdendo a vida acontecendo lá fora. Se ela se questiona sobre a decisão tomada de tecer um casulo em torno de si, com medo de não existir mais o mundo que ela um dia conheceu; com medo da solidão. Se não cogita permanecer ali para sempre, enrolada em si mesma, apegada àquilo que conhece tão bem.
Porque o conhecido, mesmo que estreito, sempre parece mais seguro do que o salto para o invisível.
Penso na coragem que reside na paciência.
Penso em quando ela olha em torno de si e entende que aquele é o momento de deixar, para trás, quem um dia ela foi. Então pulsa nela algo visceral; uma urgência que não pede licença, apenas tece os fios do futuro. No fundo, a intuição sustenta a coragem. O casulo é passagem, nunca morada.
Ao se romper, não é somente um novo corpo que se revela, há também um novo mundo junto à mudança.
No fundo, dentre tantas transformações existe uma certeza: a borboleta não nega a lagarta que um dia foi e carrega em si todas as marcas e momentos que as trouxeram até ali.
Então, depois do silêncio, da coragem, da intuição, da aceitação, compreende-se que, sem o silêncio, a coragem, a intuição e a aceitação, a lagarta não descobriria o céu e que se permitir transformar era um convite a alçar voo e tocar o vento.
Gosto de pensar também que dentro de cada pessoa existe uma bússola que nos move em direção à vida que é nossa. Em um mundo acelerado tantas vezes é dolorido aceitar o processo de casulo e uma vez dentro dele hesitamos diante daquilo que nos chama para fora neste novo mundo e sendo esta nova pessoa que ainda não conhecemos.
A borboleta só existe porque a lagarta se permitiu morrer um pouco para renascer em outra forma. É um ato de confiança: abrir mão daquilo que se conhece para abraçar o que ainda é invisível.
O momento em que tudo parece estremecer e se desfazer, na verdade, está apenas se preparando para um novo nascer.
*"Pachacuti" refere-se ao conceito quíchua "Pachakuti" (ou Pacha Kutiq), que significa "aquele que muda a Terra" ou "reformador da Terra", e representa uma renovação ou um cataclismo que reestrutura o tempo, o espaço e a sociedade.
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