Gravidade zero.


Eu adoro o meu contorno no chão. Sou um buraco negro sem profundidade exposto no asfalto gasto e retocado. Como me  faz feliz me sentir oca, por que isso são as sombras: nosso espaço vazio. Quando vejo meu reflexo escurecido projetado, ora maior ora menor que a realidade, me sinto leve como se a gravidade não atuasse em mim; eu posso flutuar.

Eu já morri, me eternizei, voei, temi, enfim fui um leque de opções verbais, mas descobri um verbo que insconsciente se fez presente desde o nascimento da humanidade, flutuar. Eu não me canso dos verbos, não me canso das atuações e morrerei todo o dia assim verbalizando a vida. Recordo que apesar de sermos feitos de verbos, há substantivos que denominam nossas relações e eu acabei por reconhecer que eu tenho uma amizade sustentável.

O crepúsculo é cor de terra e imagino a inversão. Se eu pudesse finalmente andar nas estrelas? Me pego mais uma vez falando das constelações e procuro entender meu fascínio, tão forte e morta, esse seria um dicionário com sua tradução. Oro à Deus para que as luzes humanas se extinguam. Oro para que o breu nos engula. Oro para que o brilho morto mais uma vez nos ilumine. Uma última vez. Os detalhes de uma noite agradável e um amor sem sentimentalismo e excessos me corroem, afinal nunca me apeguei aos detalhes e nunca fui minimalista ao ponto de querer a perfeição. Minha vida sempre correu como um rio, em alguns lugares transbordava alagando, em outros era um filete quase seco; nunca consegui prever seu curso e suas cheias e logo me apegava ao seu fim: desaguar no mar.

Eu aceito que as palavras chorem por mim e entendo agora que o papel mais importante dos meus olhos nunca foi transbordar, mas sim descrever. As lágrimas sempre foram transpostas em letras, estão sempre subentendidas assim como o sorrir. Um dia os trarei a face sem abrir mão das palavras, um dia serei uma gota salgada de lágrima, eu voltarei a ser nuvem.

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