A vida em máquina de escrever e textos crus.
Eu consegui escrever o que senti antes de dormir. Eu lembrei, mas por quê? Lembrei de sensações e lembrei de gostos. Lembrei de gostar do meu lado olfativo que me faz sentir o gosto daquilo que não pode adentrar a boca. Hoje eu pensei na vida como uma máquina de escrever e ansiei por uma no meu quarto afim de saber se a vida, assim, seria mais compreensível. Por que eu nunca quis entender a vida, é quase pedir pra doer e sangrar, só me peço que a compreenda ou que pelo menos me esforce para isso. Daí eu quis começar a escrever meus textos em máquinas antigas e empoeiradas pela tecnologia, por que eu sei que não terei a chance de apagar tudo ou desfazer. Eu senti a necessidade de textos crus quando eu pensei na vida.
Como escrever a vida se eu insisto em reler palavras poucas e apagá-las e refazê-las quando as sinto incompletas? Não sei. O que eu sei é que as interrogações estão me sufocando a cada texto e a partir de hoje me recuso a apagar meus sentimentos para que sejam bem vistos. Cansei de contar mentiras para que eu me sinta bem e uma linha tênue me fez entender que o escrito não precisa de moldes ou formas ou exatidões. E eu sei que entendedores dirão que é um texto metalinguístico e se esquecerão que me espremi aqui e me analisarão como fazem com pinturas que precisam apenas ser sentidas e elas chorarão quando as luzes se apagarem. Por que não farão diferença na vida de quem analisa.
E como explicar a Caravaggio que as pessoas não vêem a beleza de sua obra e sim a perfeição? Só há maneirismos e lógica em sua forma de pintar e suas cores e temas e pinceladas. Mas ninguém sabe o que o motivou a pintar caveiras ou santos ou pessoas tão reais e frágeis a ponto de imortalizá-las em seus personagens. Eu tenho um embolo no estômago e minha garganta está queimando, por que eu não consigo falar e meus dedos coçam e olhos ardem por que eu sei que esse será um texto desnexo que me recuso a apagar e concertar.
Eu me recuso a moldar meus sentimentos. Hoje não, por favor.
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