O sonho de algumas noites atrás.


Um sonho ruim não me acordou durante a noite, não me fez tremer e nem sentir frio. Eu continuei a sonhar depois de acordada e isso doeu. Deu até a noite seguinte e, aí sim, tive insônia porque fiquei com medo de dormir. Todo o pesadelo é turvo como minha alma a tempos atrás, quando não sentia dor. Meu espírito vagou pela casa vagaroso, remoendo o pouco que me restou desse sonho e o que mais doía era que, quando acordada, o manipulava e o levava para um caminho quase impossível, improvável. E então remoí todas as lembranças antigas que o tempo me ajudou a enterrar. O tempo; o amigo que nos vê como um fera. Uma fera machucada que rodeia as pessoas à procura de alivio e ele nos consola. O tempo.

Sonhei com lugares que não me pertenciam e pessoas que ansiava não conhecer, mas faziam parte de mim e estava ora no meu lado bom, ora no meu lado mau. Me apertavam e me expremiam e me sucumbiam a dores horrendas e satisfatórias. Meu otimismo me cedava: é preferível a dor ao nada. O ceticismo que os erros e as falhas no acrescentam se expoem a medida que sou retorcida, estou me encapando com meu medo mais profundo: o de escrever palavras ao invés de sentimentos. Ao escrever o mundo para me libertar do egoísmo sendo que sempre o considerei um dom, como faço - raras vezes- com o orgulho que carrego como uma pedra. O estopim de uma avalanche.

Tenho me assustado. Meus parágrafos tendem a ficar maiores e menos coesos e mais árduos. Quase um deserto. Passeio pelos lugares com que sonho e faço parada no espaço da noite passada e o barulho das pessoas e da piscina e das árvores me engole e digere meus pensamentos bons. Quem dera ao menos uma vez... Me interrompo certa de que não quero isso. Mas afinal, quem sou eu pra escolher? Como pode ser feliz uma pessoa que seleciona pensamentos e manuseia sentimentos? Eu sou feliz. Como? Não sei. Só sei que o sou. De um jeito gauche, ou talvez desvairado tenho a certeza que a felicidade foi um dom que Deus fez questão de me dar, enfim Ele me compensou sabendo que esse dia chegaria. O dia em que eu sonharia com aquilo que não sei. Ou simplesmente não queria saber.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

felicidade sóbria

fazia tempo que não sentia os pensamentos correrem livres entre meus olhos, por dentro de minhas narinas, passando pela minha boca, atravess...