Cartapácio



A escrita é uma forma de prospecção.

Deixo que escreva por nós dois minha menina, por quê não há melhor papel do que o de autor desconhecido, espalhado entre os espaços das suas linha.  Alice, saiba que todos seus textos, cartas e enigmas são meus, pois é oca o suficiente para me absorver e naturalmente rasa para me colocar para fora. Seu sorriso é sua incansável traição e me escrever é sua pena de morrer todo dia. Sua vida de aforismos e seu corpo moldado à sua alma pálida e translúcida. Anda com a cabeça longe em um futuro: presente e inexistência.

Você me transpõe a um curta-metragem com goteiras e face pela metade. Ciro te descreveu muito bem sem te conhecer. Sua catatonia constante e seus surtos de resiliência. Você diáfano em suas formas e iluminação, eu nunca consegui te ver nitidamente Alice, por quê você nunca o foi. E sinto por só descobrir agora sua fragilidade em seus textos estrábicos. Você e sua procura por esse ouro interminável e suas loucuras de olhos abertos e epifanias de janela de ônibus. Seus nomes e formas de me transpor para o papel me causam a insônia e necessidade de escutar o tilintar de uma máquina de escrever e observar a feição de um anjo sem vida sonhado por Aleijadinho.

Seus espinhos cravados na pele , inflamados e doídos e o seu medo de tirá-los me consomem em curtos surtos de banalidade. Viajo assim: encostado na janela, abraçado aos joelhos e pensando em tudo que deveria ser dito. E seus olhos de mel derretido me olhando de compaixão. Como eu odiava sua compaixão e como eu amava seus olhos. Sua consonância em voz e sua gaita empoeirada no tempo. Ah Alice, se o tempo tivesse nos amado na intensidade da paz. Se tivéssemos ouvido o vento gritar Shalom, saberíamos que era o momento certo. Mas como escutar o vento em um mundo verticalizado? É necessário ir ao restaurante e pedir uma mesa e saborear suas massas se quiser contemplar a lua em sorriso minguado ou as águas empoçadas.

Por que?  Por que insiste nisso Alice? A escolha foi sua lembra? Prostrar-me diante do seu colo quente de mulher e segurar - lhe as mãos frias não a impediu que escrevesse aquela carta, maldita carta cá entre nós. Estou aqui Alice, insatisfeito com o eu em suas cartas, te implorando em versos mudos que me escreva em carne viva que me queime todas as camadas de pele. E que soemos juntos como um dia foi. E que a soledade seja nossa eterna companheira. E que esse saudosismo não nos impeça de viver.

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