Lua de desamor.
Ela sorri um sorriso simétrico e senta no balcão pedindo ao graçom um conhaque. Escora seu cotovelo no vidro gelado e arrepia ao apoiar sua cabeça em cima da mão pálida. Agradece quase que para dentro. Sai de lá cambaleando de acordada e se joga no sofá perpendicular a vidraça colorida de céu. A música não adentra, nem as vozes ocas e misturadas em liquidificador. Sente o silêncio de estar internada no seu eu mais profundo e embaraçado. Não percebe o rapaz que se aproxima e senta de frente a ela e perpendicular, também, ao vidro negro.
- Bonita a lua né?
Ela sorri mais um ajustado sorriso em resposta seguida de suas palavras emaranhadas em sentimentos.
- Bonita sim. - e volta para sua prisão diária e noturna. Completando quase que para si a frase - Mas prefiro quando está sorrindo. E fecha os olhos
- É, a lua grande assim me faz sentir vazio. - completa para ela.
- É, vazia. -
O calor arde o peito no efeito do conhaque frio que esquenta dentro. E ela esfrega suas mãos como quem espera por uma fogueira. E se abraça apertado demais como se estivesse se despedindo. - Eu não quero que vá, mas não quero que fique - mentaliza.
- Do que você... -
- É, você. -
- Você também. - responde de olhos baixos.
- Acho que está na hora de ir. - ela joga as palavras a mesa ao procurar por suas chaves na bolsa.
- É, você tem um cigarro ai?
- Você fuma?
- Não. Só preciso de algo nas mãos já que você escorregou entre os dedos.
- Eu tenho uma caneta, serve?
- Serve sim.
Ela entregou a caneta como quem deixa o coração e sorriu por vontade. Acenou leve e ciente da morte e desenhou seus lábios vermelhos e apertados enquanto falava. Se virou. Ele a segurou pela mão direita e com a gentileza de um jardineiro e despiu a caneta de sua tinta vermelha. Ela imóvel esperou que ele terminasse e então ele levantou e apertou seus lábios apertados ao dela. Ela correu, correu e o suor levando a tinta embora de suas mãos. E dirigiu até que parou em frente a um lote vago e observou a lua enquanto acendia um cigarro.
-Bonita a lua né?
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