Um parágrafo científico.

Descrença é o mal do século. Essa seria a temática de um romântico fora de sua época. Enquanto a mim, bom, eu permaneço escondendo esse sentimento que escrevo... A descrença é o mal do século. E digo isso com um orgulho manchado de dor, assim como um cientista se orgulha da descoberta de um vírus fatal e pandêmico. Um dia sonhei em ser cientista e a culpa de ter descoberto uma nova forma de morrer, bem, já a tenho comigo. Assim como a empatia e a constante falta de palavras. Pensei algumas vezes em dividir esse texto em parágrafos ou escrever um depoimento que começasse assim: "Sou uma mulher sem rosto. No lugar de olhos, boca e nariz tenho um espelho..." e que terminasse assim: " a descrença é o mal do século."(Percebam que não deu muito certo). É por que as coisas acontecem assim mesmo! A intenção está embutida, mas as palavras escrevem o que bem entendem. Por isso inventaram as metáforas, mas alerto: palavras são traiçoeiras! Da mesma forma que minhas descobertas cotidianas são. Você quer saber a verdade? Sinto falta do utopismo infantil, do tempo lento e das roupas sujas de terra. Sinto falta da idade aonde o sublime da vida é crer naquelas palavras "você pode ser o que quiser ser." Mas agora que sou cientista os fatos são essenciais e de extrema precisão; qualquer erro ou acerto é fatal. A crença é uma piada universal da qual me recuso a rir. E as crianças - meu Deus! - estão tão velhas que tenho medo. É como uma fruta que amadurece antes da estação e quando chega a hora da colheita está podre. Crianças são frutas podres onde depositamos a fé de um futuro melhor no qual não cremos. Enquanto o mundo se banaliza, eu, uma catalisadora de desastres aproveito o curto-tempo vagaroso da madrugada, um café requentado e a mão suja de tinta. E confesso: Acho que o mal do século é a descrença. E eu? 
Eu sou uma mulher sem rosto. No lugar de olhos, boca e nariz tenho um espelho...

Nenhum comentário:

Postar um comentário

felicidade sóbria

fazia tempo que não sentia os pensamentos correrem livres entre meus olhos, por dentro de minhas narinas, passando pela minha boca, atravess...