Um pequeno pedaço de sabedoria.


Hoje acordei pensando em um personagem. Dormi sonhando sua vida e chorando por ele. O senti aqui dentro. E eu quis no fundo da minha alma está com as mãos sujas de tinta por esboçá-lo e transformá-lo, por dar-lhe a vida que é merecida.

-Eu me sinto tão pequena e insignificante - disse a Suzana, uma menina de 7 anos. - Isso é, quando eu escrevo.
- Eu entendo. - ela me respondeu antes de tomar seu sorvete.
-Eu minto em todos os textos, não sou nenhum dos meus personagens. - Sussurei baixinho apesar do silêncio do parque vazio.
- Eu sei disso. - Ela sorriu ao me responder com os pés balançando sem encostar no chão.
- Como sabe? Você tem apenas sete anos.
- Eu sei, é impossível vertir-se e despir-se de pessoas que são suas. Os seus personagens são seus e são poucos. Todos mentimos, todos. - E lambeu mais uma vez o sorvete como quem converssasse sobre nuvens.

A deixei em casa atordoada com suas palavras. Peguei minha xícara, coloquei café e me sentei na poltrona da sala escura com o abajur ligado. Estava exausta de uma menina de 7 anos. E fiquei remoendo e me sufocando com meus falsos personagens e me perguntando quais  deles eu seria ou quantos. E passei o fim de tarde mastigando suas palavras pequenas e seus pés inquietos e sua sede pela baunilha.

No meio desse insossego me lembrei que a muito tempo não escrevia um diálogo e que talvez era esse o motivo de ter personagens desconhecidos apertando-me a boca do estômago e preenchendo meu pulmão. Peguei o caderno e a caneta ao lado e começei: Levei Suzana ao parque em um dia de sol e começamos a conversar.

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