Estória de vida
Acordei e abri a janela. Deparei-me com uma manhã nublada e indefinida. Era mais um daqueles dias no qual está frio demais para sair de sapato aberto e quente demais para tirar do armário o casaco de tweed. Requentei o café que fiz de madrugada e recordei que consegui dormir sem pensar em você. Sorri. E então pensei em você por costume, talvez. Café me causa isso; e daí me intitulo: nostálgica, enquanto, na verdade, sofro de surtos, apenas.
Logo o vento desperta as árvores e a chuva começa a cair fina e preguiçosa. Deus está cuidando do jardim e me deu o dia de folga. Distraio-me e o telefone toca e então percebo que há muito tempo ele não tem tocado e há dias que o carteiro não passa e, instintivamente recordo das cartas que nunca mandei por medo. Ou sensatez. Cartas que contam histórias, lágrimas e suspiros. Cartas que matam o orgulho com desculpas sinceras e pedidos de perdão quase que de joelhos. Cartas que dizem adeus, abanando o lenço de cetim a beira do cais. Cartas que só dizem: volta logo. Cartas que descosturam meus sentimentos; embrulham em envelopes; selam e deixam amarelar.
Estive em coma sentimental e acabei de acordar. Passaram-se alguns meses, mas sinto em minhas costas o peso de uma vida inteira que perdi. Me desespero pensando se perdi, também, o tal do amor da vida enquanto estava profundamente dentro de mim. Ou fora. E concluo: não se perde o que não se tem. O telefone parou de chamar a alguns minutos atrás e a campainha não tocou. Calço minhas botas, recolho minhas cartas e me encaminho para o correio. O médico disse “sentimento mal resolvido mata mais que câncer” e não posso arriscar deixar que meu amor passe por mim sem que eu perceba. O céu desabau e lavou minh’alma.
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