- Queria eu estar entre as suas linhas. - Suspirei enquanto jogava o rascunho na sua frente e segurava a caneca ainda (e surpreendentemente) fumegante.
Ele não sorriu como costumaria fazer, nem ao menos justificou o fato de que eu não tinha me reconhecido ali. Inspirei mais fundo que fosse possível o cheiro quente que reconfortava minhas mãos na tentativa de despertá-lo das lembranças nossas.
-Me perdoa. - Foi tudo que ele disse sem ao menos encarar meus olhos, olhando janela a fora o movimento das calçadas; uma infinidade de cabeças zanzando, seguindo rumos que - talvez - nem pertencesse a elas. Quem sabe?
Ri ao recordar de um texto antigo e por um lapso de segundo ele me encarou com aqueles olhos doces atordoados, como se tivessem vendo algum morto reviver. Recitou com aquela voz calma e firme os pormenores de um amor, agora, desgastado.
Beijou-me a testa em um ato desesperado por consolo e por fim se exaltou em lágrimas e com mãos firmes segurou-me pela cintura; Encostei minha cabeça em teu peito enquanto algum rock antigo tocava ao fundo e à medida que nossos pés se movimentavam eu me despedia e ele, em silencio, me confessava que nunca mais haveriam textos sobre mim.
Levantei minha cabeça e sibilei: - aforismos, meu amor, aforismos tem que ser o título para esse seu rascunho novo.
Beijou-me as mãos e pegou aquelas folhas amassadas e saiu com um sorriso do diabo no rosto que me tirou o ar dos pulmões.
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