Estava fadada a sua rotina de xingamentos cativantes que só quem ama sabe ter. Aquela falação sem fim sobre como não estava comendo ou como só estava comendo besteira e de repente como não eu comia nada ou ainda por cima que nunca me via tomar água e que eu deveria dormir mais. Nos meus melhores dias eu sorria e andava pela casa com sua melodia ecoando atrás de mim, não sei te explicar como foi, mas a sensação ao chegar em casa e te ver, silenciosa, soltar uma breve frase:
- Faz algo pra você, por que hoje não fiz almoço. -
Me deixou estérica, tive vontade (absurda até) de gritar com você, de chacoalhar você como se quisesse ressuscitar um morto e tudo isso o fiz com a seguinte frase:
- Está tudo bem? -
Maldita pergunta! - você sabe que só vai usar quando algo não estiver bem, você sabe isso! eu sei que sabe inconscientemente disso - Porém você não me olhou, lavando suas vasilhas ao cantarolar um hino baixinho que há muito aprendera na igreja, sacudiu as mãos e me soltou a frase:
- Sebastião sumiu. -
E chorou. Chorei também, não só pelo sumiço de Sebastião, mas por você enquanto suas lágrimas escorriam rosto abaixo saindo dos olhos inchados de choro anterior. Entrei em pânico, por Deus! como nasci para entrar em pânico nos momentos que preciso de calma; como nasci para ser gauche!
(Há Drummond, tuas palavras Drummond...)
Arredei a cama pra perto da sua, deitei ao seu lado e com aquela seriedade de mãe preocupada te observei e poderia ter ficado assim por dias. Contemplando suas rugas de uma vida erguida no suor, seu braço queimado pelo descuido do dia a dia, seus olhos pequenos, fechados como se a paz fosse eterna e te pertencesse por completo. Eu quis te imortalizar ali, quis prender a paz do seu sono em você, como perfume de lavanda. Fiz seu café - nem forte, nem fraco - e você, pela primeira, vez não reclamou de como estava sem açúcar ou como tinha colocado pó demais ou ainda como havia pouco café na xícara. Te abraço uma última vez e os restinhos de esperança que restam em mim, te entrego ao falar:
- Tudo vai dar certo no final. -
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