- Você se assustaria com tudo o que meus olhos tem a dizer - confessei ainda de cabeça baixa e dedos ansiosos se procurando e se encontrando entre suas junções.
Ele sorriu. Levantou minha cabeça afim de encarar meus olhos, segurando firme meu rosto entre suas mãos calejadas. Eu, terna, no momento parado, no ar pesado, no tráfego que insistia em não parar, nas motos que corriam afoitas, dei-lhe um beijo assustado, premeditando o fim que viria depois que encarasse de volta aqueles olhos cor café.
- Despeço - me aos poucos - sussurrei.
O fim se escancara pra mim antes que qualquer outro perceba e nós, mon amour, estamos a menos de um passo dele. Estamos a beira do precipício, nos preparando para pular de mão dadas, dedos entrelaçados, tornando dolorosa a reta final.
Ele sucumbiu a vontade do abraço e desesperado me agarrou entre os braços e sem me conter , afundei meu rosto em seu peito e entornei-me como se por um instante pudéssemos ser, finalmente, um. Agarei-o na mesma intensidade e ele afagou meu cabelo. Cantou aquela velha canção que vivíamos a cantar e eu recitei Moraes.
Escolhemos o caminho mais longo e prosseguimos lentamente, aproveitando a brisa de outono.
Beijei-lhe com ternura, pois aquele seria um momento a mais.
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