Retorno ao cais

Sentei em sua cadeira que nunca haveria de sair daquele canto. Quanto tempo havia passado desde que eu estava lúcida o suficiente para não retornar?

- Senti sua falta, mais do que senti falta das nossas conversas. –

Ele riu tão sincero, tão alto, que não pude rir por nós dois. Naquele momento me envergonhei como uma criança que é pega na mentira. Não soube o que dizer e pelos seus olhos castanhos - agora  fechados na risada – ele me torcia e tirava tudo de mim. Cada palavra que não ousava pronunciar por puro orgulho, cada sentimento que não ousava destilar por puro medo.

-Senti sua falta também – Ele me disse, sorrindo com os olhos.

- Andei sonhando e – por Deus!-  nunca pensei dizer isso, mas sinto falta da insônia. Falta da fadiga, dos olhos caídos, das infinitas canecas de café espalhadas pelo quarto. – lhe confessei abraçada aos meus joelhos, de coque bagunçado na cabeça, de sorriso torto.

Ele me fitava e seus olhos, antes derretidos, agora me olhavam ferozes. Eram tão firmes quanto um carvalho antigo. Há muito tempo seus olhos seriam conforto, hoje são a fúria.

- Você não aprende jamais, não é pequena? -

E por um estante estávamos dançando em sua sala como há alguns textos atrás. Lágrimas desceram lentamente.

- Sonhei coisas lindas e coisas tristes e não quis jamais acordar, sonhei com o que deveria esquecer. Isso me perturba e encanta, não entende? Da última vez queria me afogar nas canecas de café que me preparava. Desta vez, quero mergulhar em soníferos e sonhar, sonhar, sonhar, até que os sonhos se extingam. –

Então mais uma vez ele estava sentado no braço da poltrona, me abraçando de lado e afagando meu cabelo. Meus olhos se afogavam no mar. Seus olhos se afogavam nos meus.


Escutei Morena dos olhos d’água tocar ao fundo e me afundei em seu moletom.

"Morena, dos olhos d'água,
Tira os seus olhos do mar.
Vem ver que a vida ainda vale
O sorriso que eu tenho
Pra lhe dar."

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