Rio das moscas, 22 de Junho de 2012
Esta é uma
carta em atraso. Precisei ir e vir entre multidões para, finalmente, te
escrever como deveria ter escrito há quase 10 anos atrás.
Eu aprendi, desde muito nova, a encaixotar os sentimentos e assim andei perdendo o que de bonito existe em se relacionar. Verbalizar necessidades e afetos. Compartilhar o colo quando falta palavra pro desassossego. O medo é prisão, veja bem. Mas, deste jeito tortuoso de amar mansinho, de dedos entrelaçados, no dia - cinco de junho de dois mil e doze às onze e vinte da noite - você dizia e eu não pude te ouvir. Porque o medo é uma prisão de grades a prova de som e agora - nove anos depois- te ouço. Pelos sussurros ao telefone, o chiado da respiração que pairava pesada no ar toda vez que eu te dizia que precisava ir e você me convencia a ficar.
Amar é Ventura.
Não sei o que te fez insistir por tanto tempo, mas sei que
eu deveria ter falado que amei de um jeito bonito por demais e que quando
nossos caminhos se desencontraram, eu chorei e achei que nunca mais encontraria
alguém que pudesse amar como nos amamos e a verdade é esta: nunca mais
encontrei alguém que pudesse amar como nós nos amamos. Porque cada relação é única.
Algumas vezes me culpo, como de praxe em ser quem sou, as
vezes me culpo quando ouço rumores seus, pensando em como seria te encontrar
hoje. Se sentaríamos no meio fio da calçada, feito dois adolescentes ansiosos,
até perder a noção do horário e me dar conta que estou compartilhando com você
coisas que guardei por tempo demais. Se sentiria teu cheiro fougère fresco
me invadir os pulmões. Talvez, mas só talvez, você me abraçaria de lado. Em
outros momentos nos enxergo como dois estranhos, desajeitados, sem tato, como
se nunca houvéssemos nos conhecidos antes.
Talvez não haja perdão para o que não
foi feito ou dito e este seja o meu castigo divino. Ando ouvindo a banda que tem
uma música para cada momento nosso, você não acha?
Eu não sei. Estava ocupada demais consertando os erros que
não eram meus e agora, uma década tarde demais, me preocupo com o que de fato
me pertence e eu queria ter a chance de te contar que me arrependo de não ter
chorado mesmo que eu soubesse que insistir era postergar o fim. Te contar que
eu queria ter segurado sua mão, deitado no seu ombro dentro do cinema, rindo do
seu desajeito perto de outros por saber que aquelas camadas não existiam para
mim. E que mais do que ter escrito todos os textos, eu deveria ter falado todas
as palavras, mas é que ser gauche se abrochou como um dom.
Hoje declaro – e você riria o sorriso aberto – faço as pazes com o amor e honro a escolha de se ter alguém do lado para chorar sem se desculpar pelas lágrimas. Começo com a intenção. A grande revelação apocalíptica da mudança.
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