Primeiro eu tive que morrer.
Venho perseguindo esse título há algum tempo, adiando sua
compra pela necessidade aguda de tocar sua capa e escolher qual vai me
pertencer como se todas as cópias não saíssem da mesma máquina e mesmo molde. É
que existe algo de predestino em se escolher o livro como quem não quer nada,
passando a mão pelas prateleiras, sentindo o cheiro de folhas e letras impressas,
entendendo a organização dos nichos como se não soubesse por onde seus pés te
levarão, julgando um a um pela capa até o momento em que se revela o que
esta hecho para ser. Eu, que sempre acreditei duvidando, do livre arbítrio ora
por medo ora por puro descontentamento com o viver, hoje me pego planejando o
encontro casual com Hermes, aquele que trará as boas novas dos céus para enfim
acalentar esse coração que não descansa.
Chorei por demais. É isso que embola palavras em meus dedos.
Eu, pobre coitada, que achei que palavras que desatavam lágrimas descubro que passei
uma vida acusando as inocentes que vivem dentro de mim. E dentro destas costelas,
junto a meu coração, caço as palavras que possam dar voz àquilo que ainda não
ouço bem porque respiro fundo demais, o estômago ronca e as palavras baixinhas
que são vão se perdendo nas vias do meu corpo que nunca dormem.
Além de Portelori, tenho ficado ansiosa por todos os versos
que grifei pelos livros que li e que não consigo recordar por mais que eu me
esforce. Livros de amor, suspense, ódio. Livros curtos, longos, de prosa ou
poesia. Circulei palavras bonitas demais para se perderem em meio a tantas
outras, engoli-as por inteiro e agora elas se perderam dentro de mim. Veja bem.
Se nem as palavras eu salvo, como espero salvar a mim?
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