Mantra

Andei precavida com as palavras, tão precavida que evitava músicas que consiga cantar. Mas hoje me rendo a todas as letras que me preenchem, é que chorei no ônibus quando começou a tocar Principia e eu só percebi as lágrimas quando a voz do Pastor Henrique me inundou. O luto é demasiado mistério. Embarga minha voz, sobrecarrega meus olhos quando surge repentino em um cheiro qualquer na rua e depois se vai e a vida segue. Fiquei por muito tempo com medo de continuar a viver, como se isso fosse uma traição a partida daqueles que amo. Sigo colecionando culpas que não me pertencem.

Culpada por estar viva quando tanta gente morre e culpada de estar cansada em tantos momentos ao invés de estar grata. Essa semana eu pensei em escrever um livro e esta foi a primeira vez que essa vontade não me pareceu absurda e eu sorri. A sensação mais gostosa que alguém pode sentir é a de ser pega de surpresa com a força de se acreditar em si mesma. Eu acreditei que poderia escrever um livro, como acreditei que poderia escalar uma pedra: confiante nos meus processos e em tudo que eu ainda não sei (mas ainda saberia).

O aprendizado é um frio na barriga. Mas andei precavida com as palavras para não escrever verdades que não me pertencem. Começo a reconhecer os sentimentos, as vontades, acolhendo os medos que são meus para que possa permitir que eles se desfaçam aos poucos. Quando você me disse que partiria por um tempo, achei que não conseguiria suportar sua ausência, mas a verdade é que sobrevivi, assim como sobrevivi ao viver por vinte e seis anos.

Ando por aí fazendo planos, repensando dores, perdoando o passado, acreditando na vida piamente sem arder em pânico pelo futuro que ainda nem me pertence – e nem sei se pertencerá.

Que loucura é viver. Que loucura e que espanto é viver.

Além de um livro, quis me tocar e aprender violino e a andar de patins e a pintar. O desejo que, antes adormecido, arde no peito agora. Um desejo visceral de experimentar o mundo que me rodeia, mesmo que não seja de imediato. Então crio planos, como nunca criei. Respiro fundo, no que é possível e quando será possível, sem me prender a eles em frustração. Sigo reconhecendo meus feitos e olhando pras conquistas sem diminuir as perdas, sem minimizar a dor e pela primeira vez eu consigo sonhar sonhos que são só meus e que me recusava tê-los por parecerem impossíveis.

Que viver é o mistério!

Não é que eu tenha superado a ansiedade que nasceu comigo e minha urgência em estar sempre presente para todos que amo. É que tenho colhido os frutos de aprender a me reconhecer e acolher quando não dou conta de estar bem. Reconhecer a raiz dos sentimentos que julgava horrendos - e, por isso, escondia fundo - e de tão necessários que são, corriam de dentro de mim fantasiados como outra coisa que eu fosse aceitar. Entender como tudo desandava, sentir as coisas começarem a flutuar antes de realmente saírem do lugar e respirar fundo. Me perdoar por todas as vezes que isto não for possível, mas me agradecer por escolher reconhecer meus erros como meus e me dar a oportunidade de não repeti-los, mesmo que o costume me faça escorregar vez ou outra.

Sigo não sendo perfeita, como nunca fui, mas sofrendo um pouco menos por não ser tudo aquilo que todo mundo precisa o tempo todo.

O amor não é loteria. É reconhecer e é se entregar.

Sigo tentando.


Estoy bien.

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