desamparo - bibiografia parte 1

Eu tenho noventa novas palavras que antes me seguiam escondidas entre becos e vielas. É que eu jurei ser forte demais para não sentir, enquanto jorrava sentimento pelos olhos. Eu gosto muito do novo, porque é onde me permito errar sem medo.

Comecei a desenrolar o fio bagunçado que é o viver e relembrar dores guardadas a sete chaves. Eu acredito que toda história mereça ser contada, porque todo o ser humano carrega em si o dom de transformar o mundo.

Eu me fiz valente de tão medrosa e quando entendi que o fracasso era um privilégio, fiz o contrato cruel de não me permitir errar e assim enjaulei a alma.

Aprendi desde nova que toda oportunidade precisava ser agarrada com unhas e dentes porque não saberia quando poderia ter uma nova chance. A gente que nasce em um mundo de portas fechadas, ao ver janela aberta acha que é sorte e assim fui me contentando com qualquer oportunidade que surgisse pelo desespero de viver coisas que pareciam impossíveis enquanto me cobrava a total devoção àquilo que me prestava a fazer, pois não haviam chances a ser desperdiçadas.

Me quebrei pelo caminho, para me comportar onde eu não me via, mas precisava estar e agora me questiono como me reconstruir neste espaço que me permite florescer.

Como tiro das costas o peso que carreguei por tantos anos?

Revirei o mundo em desamparo, achando estar tão só que mais que me bastar, eu deveria me esconder.

Fiz de mim meu tameion. Onde oro e choro, em solidão. Encostando minha face sobre minhas mãos apoiadas nos joelhos que não levantam.

É que as coisas acontecem antes mesmo da memória. Como o dia em que tive a primeira crise de ansiedade e, com quinze anos, chorei porque achei ter perdido a prova da escola, às 3 horas da manhã. Porque me senti nômade por uma vida, não só pelas mudanças de escola e casas, mas por não pertencer aos espaços nos quais habitava.

Eu sou a vilã de mim mesma. Eu também sou também aquela que me salva.


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