Inauguração

 Faz um pouco mais de três anos que minha vida mudou completamente. É que na quinta feira, enquanto eu encarava o calendário em cima do frigobar e remexia o colar em meu pescoço, ela me disse: isso é inaugural. 

Talvez eu devesse pensar neste marco, mas penso em tantas outras coisas. 

Como, por exemplo, os motivos para que eu não me reconheça tão bem nas relações que cultivei. Criei minhas teorias. Eu sempre soube o lugar que deveria ocupar. Desde que abri mão, de forma dolorosa, de me fazer presente somente me doando abri um grande buraco em mim. Quem sou dentro destas relações? Não sei, mas sei que agora entendo meus desconfortos e, como me disseram uma vez, isto é inaugural.

Inaugural também é o perdão, quase como uma revelação. Havia uma raiva infantil que já não me cabia ter e quando eu disse: eu te acolhi, te nutri, mas quero que você vá embora, ela foi. Sobrou espaço para a compreensão. Ou talvez fosse o caminho invertido, permiti que a compreensão entrasse e então a raiva se desfez. Não sei, nunca fui boa em contar tempo, mas tenho me tornado boa em sentir sentimentos. 

É que sábado foi um dia inaugural.

Andei – ou ando – angustiada. As palavras que sempre foram meu refúgio, de repente se tornaram um tormento. Eu não soube lidar com o fantasma da solidão. Aquele que sussurra que o outro está sempre de partida, me deixando em alerta para partir também.

A vida se tornou vazia de coragem.

Eu, que aprendi a amar me entregando por inteiro, na esperança de que isso bastasse para que o outro ficasse. Eu, que aprendi a partir antes da hora, por medo de não suportar a dor da ausência. Antecipava catástrofes para lidar com os escombros que eu mesma produzia. Pelo menos eram meus.

Escolhi, pela primeira vez, a vulnerabilidade e o pedir apoio, mas ainda sim esperei a partida. Aguardando o momento de juntar os cacos deixado no espaço que o outro ocupava.

Entender que compartilhar me fez inteira e tornou o impossível, possível.

Compartilhar o quê de mais sagrado se possui com os outros. Os sentimentos que sinto.

As vezes ainda duvido do processo, mas sigo tentando.

A vida ainda (re)existe

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