O primeiro deste ano

Ando aflita para escrever.
Não.
Ando aflita para escrever aqui.

Com frequência tenho sujado a lateral da mão direita de azul. Escrevo, escrevo, escrevo em papel sem pauta mesmo sabendo que não tenho a destreza necessária para não usar as linhas. Muitas vezes escrevo palavras soltas e frases que dizem profundidades nas quais ainda não consigo mergulhar.

A verdade é que as palavras tem me exigido o barulho dos dedos contra as teclas. Exigido de mim o deslizar dos dedos entre os espaços para que os textos se construam sem esforço. É como se na tentativa de escrever no papel, eu ainda tivesse controle e quando digito tac tac tac tac não tenho outra alternativa senão ser surpreendida pelo que escrevo.

No nosso último encontro tracei na perna entre desenhos desengonçados;"a eterna busca do erro" entre rabiscos de barcos, flores, espelhos, uma vela acesa e um pandeiro. Tenho tentado me permitir várias coisas. Dentre elas, ando trabalhando a ideia de que não há em mim os motivos que busco para a partida do(s) outro(s), vez e tanta ainda vacilo e você me puxa para perto. De certa maneira, aprendo sobre o cuidado.

A ansiedade se fez presente, mais uma vez e eu ensaio o inspirar lento e expirar fundo e ouço o som dos micos que gritam afoitos nos galhos e das maritacas que tagarelam do fio do poste e das cigarras que se exibem camufladas entre o tronco na tentativa de me recordar que há muita vida e há muita vida boa. 
Então trago para a memória pensamentos bons sobre o viver, as experiências e o tanto de mundo que existe por ai, feito de gente que dá vontade de experimentar a vida. 

Passo os olhos sobre o tempo, este que é amigo mesmo quando estamos em guerra ferrenha. Que sabedoria existe nesta carcaça que de tudo duvida? Como aprendo a confiar mais em mim para confiar mais no outro para acreditar mais no mundo?

Este mesmo texto, em outros tempos escreveria a fio sem saber muito bem por onde seria conduzida, como quem abre uma trilha nova em meio à natureza inebriante. Hoje, dou passos lentos por entre os parágrafos construindo um caminho de passos e marcações para que eu não me perca naquilo que sinto. Por um milésimo de segundo penso que há alguma sabedoria em respeitar o tempo de sentir com as mãos ao invés de correr desesperada por entre florestas sentindo as ranhuras de galhos que não vejo, brigando contra cipós com as mãos. Há uma sabedoria no descanso entre as frases, no observar o fundo do texto como quem conversa olhando fundo do olho para mostrar que quer sim entender e se conectar.
Então, escrever pausadamente é me permitir me conectar comigo.

des e re. aprendo.

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