A respiração que não significa vida.


Eu acordo cambaleando de sono, meu quarto nunca foi grande mas, especialmente, hoje ele parecia não me conter. Eu procuro em minha massa cizenta as lembranças mais recentes de uma noite passada e uma ressaca sentimental me faz cair sobre a cama. Eu me lembro de como planejava meu futuro, cada mísero detalhe de algum lugar chamado vida. Parcialmente acordada já não consigo me lembrar do significado desse verbo tão abstrato e insignificante: viver.

- Alô Maria Eduarda você está ai?

silêncio.

-Maria Eduarda você está me preocupando! Me responde por favor, nem que seja com uma respiração pra eu saber que você está viva.
- E quem te disse que uma respiração responde a essa pergunta?
-Graças a Deus! Que pergunta Duda?
- Bom, se  respirar responde se estou viva, "estar viva" é uma pergunta.
- Você e seus devaneios Dudinha! Uma pessoa só morre quando o ar não consegue atravessar seu pulmão, isso é um fato científico.
- Há muitas formas de morrer Felipe, por exemplo eu estou morta agora, mas respiro pra sobreviver. Viver é uma ação desconhecida na minha lingua. Nunca soube viver, por isso nunca saberei morrer e serei eterna.

Nunca quis viver, nunca pensei na hipótese de morrer, o verbo que sempre me definiu foi eternizar. O feixe de luz que entrava pela janela queimou minha retina e um surto de felicidade me pecorreu as veias e eu lembrei do por que de ter dormido sem me compreender, eu desmaiei de dor, a dor da escolha, a dor de não existir.

-Você desistiria da eternidade por mim?

Silêncio.

-Maria Eduarda, não vou te pedir por uma respiração de quem não vive, me responda sem delongas menina!

Silêncio.

-Duda por favor, esse será meu último pedido, me responda, não me faça implorar!
-Fê, como vou responder se eu não sei a resposta, se nunca tinha ouvido esse verbo: desistir. Isso nunca foi me imposto antes, desistir da eternidade pra viver, desistir de mim por você, nunca.

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