A sacudidora de palavras.
Eu retomo o gosto das lágrimas ao se romperem nos cantos opostos do meu lábio queimado de frio. Percebo-as além do salgado; percebo-as com gosto de falta. Por que elas podem resistir a qualquer barreira, menos a de um livro. Eu choro pelo mundo no decorrer de um enredo mas nenhum personagem se fez tão presente quanto a sacudidora de palavras. Seus versos nunca são iguais. Enquanto meu choro escorre até morrer no meu peito manchado de dor leio sobre uma menina que conseguiu verbalizar todas as vidas ao seu redor. Fecho os olhos ao sentir a primeira lágrima invadir minha boca. Eu nunca me senti tão feliz. Atordoada com o passado que não vivi, reflito como seria fazê-lo. Concluo: impossível. Por que ninguém é capaz de viver como uma adolescente na alemanha nazista e por que se isso acontecesse a morte, provavelmente, não sucumbiria seu precioso tempo a narrá-la. Ninguém seria tão perfeito quanto foi Liesel Meminger ao sofrer de palavras.
Eu preciso dizer o nome do meu principal personagem e preciso me quebrar ao decidí-lo. Eu tenho muito de Liesel, só não tenho sua relevância para a morte e seu ódio pelas palavras por mais que as intitule como um fardo. Afinal elas não me causaram a dor de viver para ver quem eu amo morrer, não me causaram lembranças, muito menos a vontade de um beijo não dado. Se ela soubesse -penso eu desolada. Não é obrigação da morte avisar sobre o futuro, muito menos o dom de consolar. Ela nasceu fria para carregar almas quentes que as vezes vão ao seu encontro e lhe queimam as mãos. Ela é responsável por mudar a cor do céu por onde passa e por sofrer em silêncio, por que até a morte tem coração. E eu poderia lê-la minha pesonagem, cem vezes, que não te desenharia com a perfeição que seu papai a fez: uma menina de sorriso grosso e largo e sem olhos. Um porão te salvou. E as suas palavras. Será que fui salva assim também?
Fez brotar de um judeu condenado ao fim, uma lágrima de amizade e lhe deu palavras também. Ao fazer do seu porão um quadro negro, um ringue, folhas em branco e principalmente o silêncio das palavras, não teve dúvidas de que seria um cômodo abaixo do chão seu castelo. Com vigor fez-se melhor amiga de um menino que admirava o que o Fhurer repudiava e que tinha cabelos cor de limão e uma pele enegrecida por carvão; com ele cometeu seus melhores furtos e eu sinto por você o beijo que só lhe escapuliu quando àqueles pulmões de 1500 metros não tinham mais ar. E me fazia sorrir a honestidade de sua voz ao implorar por uma wastchen e por saber que fez por merecê-la e a fez com amor. Seu irmão nunca se esqueceu de você e sorri por que será uma eterna criança. Não tenha mais noites mal dormidas por causa de um trem, saumensh.
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