Chegou o correio.


Suas palavras me paralizaram. Estou à trinta minutos em frente a sua letra rabiscada no papel, meu braço está dormente e meus olhos ardem, mas não consigo abandonar o envelope. Há tanto tempo venho esperando algo que me conduza para fora do comodismo; enfim, nunca consegui compreender o mundo e por isso deixei que ele me engolisse com seus meios termos.  Procurei no dicionário e me arrastei por linguas estrangeiras a procura de um substantivo que me faça te conhecer à princípio, mas falhei. Falhei por tentar te definir, falhei por não conseguir te nomear e minhas pernas dormente agora me põe ao chão e o acaso nos faz um. Estou cansada de parágrafos e cansada do mundo. Eu sofro de cansaço mental. Sofro de embolo interno. Sofro de falha. Sou humana ao ponto de não aceitar meus erros, sou errada a ponto de suportar-me sorrindo, ainda que, por dentro.

Procuro por coisas paupáveis e sabores novos, sempre quis ser uma ilha, sempre quis ser vulcão. Até agora. Minhas mãos se empalidecem e me transponho de plano. Eu não ocupo lugar nenhum, sou um reflexo de sonhos partidos e sorrisos frouxos. Nunca me ensinaram como se dá um nó sem que fosse preciso retocá-lo e eu nunca tive paciência para cuidar das coisas, para mantê-las bem. Um choque elétrico me acorda de um coma induzido; é preferível sentir dor à não sentir nada. A velhice é um dom que nunca me incomodou e que por muitas vezes me foi um para-quedas enquanto saltava de precipícios sentimentais: sempre insisti em sentir por completo, sendo que nunca o fui. Sou partes de algo que construi em um futuro que já não é tangível, como prever algo que não está definido? Sou simples demais para sonhar.

Tenho acordado quase todas as noites sem abrir meus olhos, por vezes achei que seria um sonho. Um zumbido me incomoda e insiste em ficar. Acordo cansada demais para o mandar ir. Mas agora sua carta chegou, acho que a escreveu a alguns anos, o envelope está amarelado e a foto que veio dentro é sépia. Queria que ainda estivesse aqui decifrando todos esses pensamentos. Me enrolo e me enlaço ao cobertor e as lágrimas me dão forma - de quê? A geometria tridimensional de um choro engloba meus pensamentos e me desvio de você, se eu tivesse um pouco da sua coragem... Te desenho com a imaginação de alguém que não mais conheço e que nunca vou conhecer; te pinto em aquarela com cores vivas e sólidas e não te reconheço. Eu sei que essas cores não condizem com seu tom de pele e seu castanho. Nem o laranja ou o lilás; azul talvez. O tempo se perdeu na ampulheta quebrada e a areia foi levada pelo vento, espero que descanse em paz no mar que a arrastou. Enquanto isso procuro pelas suas cores e seus substantivos.

Oro para que chegue mais cartas que me levantem desta cama com a vontade de existir, que preencham meu contorno e deem fim ao meu opaco. Que me sirvam de luz e que cortem o efeito da morfina que deixam em minha porta ao passo que durmo. Espero que alguém te conheça e consiga lhe dar as cores e nomes que são seu por direito. Enquanto a mim, continuarei acordando durante a noite e sorrirei com sua carta debaixo do travesseiro.

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