Dois segundos


Eu estou deitada ao sol escutando músicas que me trazem paz e dizem sobre pessoas que desconheço e sinto que estou começando a me apaixonar por elas. Estou encolhida e retorcida em uma cama espaçosa demais para minhas dores escutando músicas que me devolvem a esperança e os sonhos que tem começado a escorrer de mim. Estou pensando demais sobre o futuro e agora tenho um medo que nunca pensei ter: tenho medo de desistir, ou será apenas orgulho? Mas desisti do quê, afinal? Não sei, só sei que o quero. E quero com a urgência de ter fome ou sede. E quem disse que eu não posso? E quem disse que eu posso?

Me acusam constantemente das minhas loucuras e quase sinto que sou incapaz. Idealizar é sinônimo de sofrer ou de conseguir? Estou frustrada exatamente agora e gritam em meus ouvidos que preciso ser como uma lagarta se preparando para metamorfose, mas nunca tive paciência para mudanças e transformações. Eu sempre precisei de que tudo acontecesse a medida que eu sonhasse e agora estou deitada escutando pessoas que sussuram vagamente de seus sonhos bons. Eu não tenho sonhos bons. Eu não tenho sonhos ruins. Eu só tenho sonhos, todas as noites, diferentes e iguais em suas medidas e profundidade. Só sei que agora tenho medo de dormir e tenho medo de sonhar. Se Alice descobriu, depois de treze anos, que seus sonhos eram lembranças, por que não poderia acontecer o mesmo comigo? E se minhas luas fossem Chessur? Eu me recuso a sonhar sonhos desbotados pelo constante uso.

Agora sou eu, o café, meus olhos trincados e a mobília gasta respirando por mim. Sentada em uma poltrona com televisão no mute e estrelas no quarto. E o mundo está caindo lá fora e eu estou dançando aqui dentro e sorrindo. Eu queria enxergar o que todos me cantam com prazer enquanto sorrio e repito. E enquanto canto procuro por razões que justifique o egoísmo de me conter e de silenciar meus devaneios. Afinal, não devo mesmo ter nascido pra viver e quem sabe eternizar não seja meu verbo e indefinir não me componha. Sonhar não é mais um dom e que morrer a cada instante seja, agora, minha única alegria. "Em menos de dois segundos pode-se viver uma vida e uma morte e uma vida de novo.(...) Quem sabe Deus não conte nossas vidas em dois segundos: um para nascer e outro para morrer. E o intervalo, meu Deus, talvez seja a maior criação do homem: a vida."

Se for assim sigo feliz, morrendo nos instantes humanos, até que Deus resolva contar meu segundo múmero dois e eu não precise mais morrer, nem desistir e nem ter insônias. E quem sabe aí eu seja inteira ou apenas feliz em partes, mas por completo. Só Deus sabe quando eu vou merecer meu segundo final e eu possa cantar uma canção pra não voltar e que eu, finalmente, a entenda.

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