Outro rascunho de uma carta torta.
Maria, eu não te conheço mais e tenho medo de te encontrar. As pessoas dizem que sentimentos verdadeiros nunca mudam e me pergunto se essa afirmação se mantêm mesmo que as pessoas envolvidas tenham mudado. Por que eu acho que foi isso que aconteceu. Nossa relação está intacta e bem mantida, só que, guardada, junto com as pessoas que um dia fomos e eu preciso te confidenciar: eu tenho medo de te encontrar Maria e de passar longas horas com você. Eu tenho medo que o assunto acabe e o silêncio, finalmente, se torne constrangedor e que eu precise inventar uma desculpa para sair da sua presença e remoer o que um dia fomos. Sabe Maria - você não me reconheceria, por que eu não sou eu e nem você é você, mas as vezes eu ainda te encontro ai dentro.
Eu tenho uma caixa de cartas interminadas à pessoas que desconheço, mas hoje eu precisei te escrever por completo: as vezes peço à Deus para que não cresça. Não há muito que eu possa fazer a não ser ver as nuvens passarem e se transformarem assim como nos aconteceu. Maria, as vezes tenho vontade de correr até você e sufocar seu corpo pequeno no meu abraço apertado e sussurrar para dentro a falta que você fazia. Mas eu sei que essa falta não vai passar, por que eu sinto falta de alguém de tempos atrás; alguém que me traria café quente pra me ver sorrir e me colocaria pra desenhar meus sonhos e eu os fitaria até que os sentisse sair do papel. Por que não se pode ver sonhos, você apenas sente e sorri. Ou chora. Seu cabelo está perdido no lixo de algum salão, seus olhos continuam grandes, mas agora são vagos e secos como as folhas caidas no chão do outono.
Me doí Maria, por que eu não sei se sente-se assim, ou se comecei a enlouquecer mais rápido. Por que, você sabe: sempre fui tendenciosa à envelhecer cedo e a caducar também. Preciso te confidenciar - as palavras andam me fugindo e quase sempre fico perdida nos meus sentimentos menina- as pessoas vem me perguntar como estou e eu não sei responder. Eu preciso entender que as coisas mudam, mas mudanças sempre me causaram enjoo. Apesar de toda essa bagunça, acho que ainda te amo menina e essa coisa de irmãs nunca vai me abandonar; mas não sei se te contaria da minha vida com tanta liberdade. Eu já não sei quem você é. Não reconheço quem se tornou.
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