Poeta de rua.


"Tenho uma casa toda infestada que não tem teto, que não tem nada. E ninguém pode entrar lá não, senão a casa vai ao chão. E nem eu posso dormir em rede por quê na casa não tem parede e se eu quiser fazer xixi, eu vou na árvore que tem aqui. Mas ela é feita de papelão e me alimento com comida de lixão."

Deito na calçada gasta sob meu teto estrelado, me cubro com os mais vistosos papelões e cobertas encontradas nos lixos ou doações. Meu nome varia com a residência: posso ser o da Rua Bahia, as vezes o da R. Espírito Santo e quem sabe o da Av. Guarapari. Acordo com despertar do sol e com as mãos e pés calejados vou de encontro com minha carroça. Pode me chamar de Zé. Não sei ler e escrever, mas sei muito mais que políiticos e filósofos, pois sei da vida. De uma em particular que eles não ousam conhecer. Se trabalho? Claro! As vezes consigo até comer alguma coisa nova em algum boteco de esquina. De vez em quando consigo até uma dose de conhaque para o frio das madrugadas.

Me falavam que eu tinha olhos de ver alma, mas agora eu não sou visto em presença. E seria assustador ver uma pessoa como eu dizer que tem epifanias. É o mesmo que dizer que tenho depressão. Meus amigos dizem: isso é coisa de gente que tem dinheiro ou uma pessoa como nós não pode ter esses luxos de ficar doente, aqui é estar vivo ou estar morto. Sou turista de uma cidade caótica e em ruínas, sou um animal que revira as lixeiras na manhã, que desjejua com restos e faz constante jejum por necessidade.

 Quem sou eu? Sou o Zé. Aquele que tem uma casa na Rua Bahia, Rua Espírito Santo e uma casinha de campo na Av. Guarapari. Aquele que tem amigos e um teto de céu. O homem abençoado por Deus por estar vivo. O homem que enxerga almas, mas não é visto. Um dom emcapado por sujeira de Aslfalto. Prazer.

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