Ela andava a pé sem medo e sem culpa. Andava pesada e tortuosa e fazia parte do cenário. Sentia pelas plantas e asfalto e chorava a chuva que caia a encrespar-lhe o cabelo, e nunca foi tão completa como estava. Uma sombra na rua, de andar vagaroso e penado. "Eu sou o que tenho que ser." riu baixinho pra si. Tão silenciosa quanto seus passos surdos na noite minguada de lua sorridente.
Abraçada a si quase que por dó e compaixão não-sei-de-quem ou de quê. Sua alma era a água que escorria morro abaixo e seu espírito era a casa da esquina que mantinha constante reforma. "Sou uma nômade de casa fixa." falou interna em casulo. Tão esponjosa quanto seus olhos absortos. A chuva a lhe desmanchar a pele dura e vermelha como maçã. E o aroma de todas as flores -Meu Deus!- se concentrava ali. Destinada a ser o que veio ao mundo pra ser, não interrogava ou contradizia, sabia que o que lhe acontecia de mal ou de bom era o que a tornava ela. Pesada e constante.
"Antes me lembrava de você com dor, agora me lembro com contentamento." Suspirou envergonhada. E se lembrou de lembranças profundas e mortas como estrelas que contemplava no caminho de casa. Pensava todos os dias em mudar o rumo, então se lembrava da lua, das nuvens do pinche negro e pegajoso que era o céu e logo perdia a coragem de alternar sua vida -perdia o que nunca conseguiria ter- assim como perdia o amor de quem ela não conhecia, por ser prévia em saber que tudo tem um fim e é assim que as coisas acabavam. Enquanto era cenário cantarolava com a boca rachada e pálida, dessas de causar enjoo: " a gente é feito pra cabar..."
Sentada no meio fio compondo a sombra negra que era o céu escorrido, de olhos brancos e pupilas dilatadas a procurar por algo que constantemente sentia falta, mas sem nunca questionar falta de quê. "Devo ter saudade de coisas inexistentes." filosofava discreta em meio a multidão de sombras. De punhos sempre cerrados e passos de pena, atraía olhares curiosos ou consoladores. Sentia vontade de gritar, então pensava alto até desmaiar. E apesar da pele quente e do sangue e lhe correr raivoso sentia frio nos pés. Logo,pois, calçava uma meia grossa e se jogava na cama lembrando do momento em que foi completa. A imagem não passava de um borrão; tudo que sabia de concreto era da chuva a lhe escorrer entre os cílios até deixar turva sua visão. Era completa e turva, encrespada no momento que passou.
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