Três que se tornaram um


Eu escrevo por que eu li. E as palavras lidas me entraram pertubadoras. Eu leio, por que não consigo mais estar em um mundo paupável e eu desejo ser tangível. Me embebedo com as palavras e me embriago. Ando pela rua sentida e pesada com as palavras. Palavras de trinta anos ou mais, mas que me relatam agora, me consomem agora e levam ao chão, agora. Agora que já não sei mais. Na verdade eu nunca sei. Meu Deus, por quê? Por que preciso me emaranhar com os livros e tomar suas dores até que sejamos um? Ou será que foram eles que tomaram minhas dores? Não sei.

As palavras lidas são mais fortes e doces e desesperadas que as ouvidas. Eu sofro de surdez e sou encubida de escutar o mundo. Sentimos igual: eu, o mundo e as palavras. Somos um. Eu sou, não apenas com o coração. Preciso ser de corpo inteiro para suportar as palavras e o mundo e suas crises que me tangem em pontos distintos. Três que se tornaram um. Mas tenho medo, que me é, de todo, bom. Tenho medo por que sei que as coisas acabam, ora bem, ora mal. Tenho medo por saber que nada nunca será sempre; nem eu, o mundo e as palavras. Eu sei que a lareira, ao passo que o tempo é consumido, não terá mais a mão que atiça. E então sinto o fogo doce arde, arde, flameja.*

O mundo é pequeno para as palavras e grande demais para ser absorvido e dissolvido no meu sangue. O oxigênio é insuficiente para me manter de pé. O mundo é vivo e inteiramente substancial ao ponto de ser imaginado, mas nunca admirado, afinal só se admira o mundo quando não se está mais nele. É uma exigência. E é quase absurdo. Quase, se eu não sentisse por ele. E o sinto em partes, o amo em partes com o meu inteiro até que o fogo se vá e eu, doce, arda, arda, flameje até me ir também.
*Clarice Lispector (Vida Natural).

Nenhum comentário:

Postar um comentário

felicidade sóbria

fazia tempo que não sentia os pensamentos correrem livres entre meus olhos, por dentro de minhas narinas, passando pela minha boca, atravess...