(...) Até aquele dia, não tinha compreendido que silenciei quando devia ter gritado e gritei quando devia ter silenciado. Até aquele dia, não tinha compreendido que me afastei quando devia ter ficado, e fiquei quando devia ter me afastado. Até aquele dia, não tinha compreendido que quanto mais perguntas eu embaralhasse naquelas poças, maiores eram as chances de que elas se afundassem junto com as respostas. Até aquele dia, não tinha compreendido que aquele sorriso aprisionado numa fotografia de outono, voltaria do passado para arruinar meu orgulho, meu coração e meu destino miserável. Até aquele dia, não tinha compreendido que. Até aquele dia.
Agora a memória era uma máquina analógica. Como naqueles antigos projetores de slides que meus avós guardavam em caixas no sótão. Num retrato em sépia, congelei teu rosto. Foco, e, na luminosidade do instante, pisca-me o sonho. Recuso-me a revelar-te. Prefiro guardá-lo no negativo de meus olhos.
(...)                           
                                                                                           Lídia Martins

Nenhum comentário:

Postar um comentário

felicidade sóbria

fazia tempo que não sentia os pensamentos correrem livres entre meus olhos, por dentro de minhas narinas, passando pela minha boca, atravess...