Digo-lhe que sou feita em
medo e angústia.
E mais ainda falo-lhe:
sou completamente apavorada
quando me falam do
viver. Por que me falta coragem
para ser um dia
algo menos que melancolia.
Abro-me feito janela ao
amanhecer,
deixo o sol me invadir
e me queimo feito retina.
A tempestade dessa
cidade sou eu.
A cicatriz dessa cidade
sou eu.
Só não pertenço mais ao
espaço,
não pertenço aos
amigos,
não pertenço à vida.
Deixei de pertencer
desde o dia que
olhando pelo vidro
embaçado da janela do ônibus
descobri que eu, na
verdade, nunca soube me doar.
E só não sei o que me
faz bem ou o que me faz mal,
só sei que o que me
fazia bem já não tem efeito algum.
Choro-lhe vagões
desencarrilhados e você sorri
sabendo que estou indo
em direção ao caos.
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