(...)

Estas cápsulas de silêncio estão me emudecendo. Voai, suaves desejos de lhe dizer o que penso. Lá fora há tantos ruídos, mas quando me sento nesta escrivaninha, tudo silencia. Bebo e desbebo este silêncio, abro e fecho os lábios que solfejam, lentos, uma canção para si mesmos. 

(...)

Há entre mim e estas janelas um desapego solidário. Saltamos, imediatamente, ao próximo instante. Ressinto o modo como a paisagem muda de propósito. Não me espantará que este lume de amor seque mais rápido que a tinta da caneta que se dispôs a catalogá-lo. Poucas coisas resistem à ferrugem quando o silêncio é a única dimensão do contato.

Entardecemos por dentro. De solidão, de saudade, de medo. Ficamos, os dois, parados um diante do outro, efêmeros como castelos de areia que se constroem, para depois se desmoronarem aos poucos. Barcos de papel com seus frágeis velames sonhando tocar o céu. E nem estávamos tão longe assim do cais. Estávamos, antes, longe de nós. Desencontramo-nos ao nos encontrarmos. Éramos humanos. Nenhum de nós sabia lidar com o abandono.

(...)
Folheio estas páginas em branco, que não foram senão testemunhas do fastidioso tempo que desperdiçamos. Saciedade triste de dedos que forjaram o esquecimento quando tudo o que tinham era fome de afeto. Este esvoaçar de palavras que nos reduziu a este amontoado de folhas amareladas. O olhar ensaia passos no horizonte trêmulo, como os da criança agitada que tropeça às suas costas. As cortinas se fecham ao toque sutil dos últimos ventos de Abril, já sabendo que não vão encontrar o que vieram procurar. Há, nesta coreografia de memórias, qualquer coisa que acalma. Como uma canção que toca apenas para nos recordar.

Destes versos em que não somos mais que o eco, urge o tempo que faz sangrar...
Lídia Martins

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