Meu maior descaso é um pronome


Resolvi abrir hoje a caixa com todas as suas palavras empoeiradas e não parei as lágrimas por que - por Deus! - nem se eu quisesse as pararia hoje.

Li inúmeras páginas sobre amores, conhaques, cigarros e descasos.

Mergulhei no teu eu que desconhecia; que só existia nos papéis e por um mísero segundo de epifania quis te absorver para além de mim como se pudesse pegar esse teu pulmão regaçado e esse seu tênis imundo e trazer para perto.

Escutei tua voz percorrer todo meu corpo descobrindo a maior tristeza do ser humano e seu maior consolo das peripécias da vida: a solidão.

Peguei a gaita de dentro da caixa, ainda com laço de fita vermelho e dei-lhe vida com meu sopro e me senti Deus, logo em seguida senti vergonha por tamanho absurdo.

Recordei o seu cheiro de fougère que de repente impregnou minha roupa, meus móveis e o ar sem movimento do quarto.

Anestesiei meus dedos escrevendo despedidas diversas para que eles não pudessem escrever sobre você, mas dessa vez me trapacearam, assim como você.

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