Sentir o sangue pulsar as veias, sentir o coração três vezes maior do que ele é, sem nem ao menos um mísero esforço, só por que se permitiu não se conter. 

Não briguei com Antonieta, não por não querer, pois eu quis, mais que qualquer coisa!, gritar todas as verdades tingidas de descaso que trazia no peito, acumuladas ao longo do ano. Não briguei. Talvez por piedade, ou cansaço mesmo, por saber qual rumo a conversa tomaria e no fim - ah o fim! o que seria de nós se não vivêssemos a premeditar os finais?- seríamos duas, com mais caco e menos coração.

Há semanas não chovia e isso aumentava a irritabilidade entre nós. Até hoje não sei como, mas sempre soube que de alguma forma a previsão do tempo previa nosso humor também e a de hoje dizia: instável com previsão de pancadas. Aflita do momento que pairava, onde palavras não eram trocadas, olhares não eram trocados, toques não eram trocados, fiz café, sentei na poltrona de sempre e abri meu livro - aquele que eu nunca terminaria de ler - pequenos prazeres diários.

Dormi assim, há anos ela não me acordava, não me colocava na cama. Há anos não acordava tarde com a marca de seu beijo em minha testa. Anos corridos de amor escorrido.

Não quis brigar com Antonieta. Escondi suas verdades pra mim. Mantive os restinhos de cacos inteiros intactos, por amor mais à ela que a mim. A tempestade veio como o previsto. Fiz café como o habitual, abri o mesmo livro na mesma página 129 e sentei na mesma poltrona. Dormi sem a esperança de mudança, acordei na cama.

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