Escassez

Sabe Serafina, o que acontece é o seguinte: o coração, sente; e de tudo o que sente, tudo se guarda. Não sei mais por onde andam suas mãos ou por onde passeia sua lingua ou no que focam seus olhos. Das poucas verdades que sei por concreto é que tuas mãos, lingua e olhos não me conhecem mais. Pois já fui cem outras desde a última vez que nos encontramos.

Sabe mais, Serafina? A fadiga sentimental é ainda pior que a claustrofobia. Pois, pior que o medo de sentir, é o cansaço de ter sentimentos, veja bem. Estão aqui, o ódio, o amor, o desejo, a saudade (mesmo que seja estado de espírito), mas há um tempo no relógio em que não cabe mais a ninguém a luta para manter vivo o que aos poucos morreu.

- E se matamos? - Me indaga.

Ainda sim está morto, mortinho, gelado e azul. Nós causamos isso aos sentimentos.

Porque há um tempo, também, que a fadiga se torna descaso e o último suspiro de vida se esvai, pois não há lutas a serem vencidas e nem traumas a serem superados. O que existe é apenas o: vamos seguir a linha reta que nos guia, pois não se vê o futuro depois da curva.

E se as palavras tinham me abandonado - agora entendo - é porque não havia a necessidade de sentir além do interno. E agora, Serafina, o interno está em caos, está sobrecarregado de fadiga e ausência de quê?

Da sua presença.

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