Cartas queimadas I

Acorda sem saber se realmente dormiu. Parece que sempre vai existir dentro da gente aquele sentimento de que algo precisa ser consertado. A solidão faz companhia junto com a voz de John Mayer cantando coisas que não entendo, porque parei de prestar atenção há muito na letra. Perdi as contas de quantas vezes quis começar uma carta nova ou encontrar palavras para as lágrimas. Carlos sempre dizia que as vezes não precisamos entender, as vezes só sentimos ou muito ou demais e que isso seria suficiente.

Não há tempo na vida para novos livros, nem cafés velhos, acabei de entender. Pouca coisa na vida me doeu tanto quanto entender isso. Quanto mais se tem, pouco se tem. E se atropelo a vida e mato dinossauros antes que venham meteoros por puro egoísmo de não querer a perda, o que sou? Carlos ri e me diz: humana, Tereza. Você é humana. 
Não acredito muito. Da mesma forma que Carlos não acredita que não consigo manter minhas relações independente de quanto amor eu sinta pelas pessoas.

- As vezes tem gente que é feito pra isso. – Tento convencer Carlos. – As vezes algumas pessoas do mundo são destinadas para a solidão e não quer dizer que sejam infelizes ou perdidas.

- As vezes, Tereza, ninguém é feito pra isso. – Ele disse com aqueles olhos doces, sentado naquela mesma poltrona. – As vezes a pessoa só tem medo das perdas, então recuam de todas as relações.

Não disse nada. Não soube o que dizer e, acho, que mesmo se soubesse não diria. Então me permito sentir a culpa sem remorso.


- Seria medo ou coragem? 

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