Carta 98

Belo Horizonte, três de agosto de dois mil e vinte

Foram exatas noventa e sete cartas ao longo dos anos. Você que me trouxe a tona a escrita e me incentivou a mergulhar no mundo diante de mim que me pertencia e a mais ninguém. Sempre nos apegamos as nossas semelhanças, a diferença de dois dias entre nossos aniversários, a apreciação aos tons de azuis e nossa fé. Você já era o escritor e eu admirava a falta de pudor que haviam nas tuas palavras e a forma como se permitia ser feroz e ao mesmo tempo entregue a quem te lia. Fazem noventa e sete cartas e alguns anos. Esta é a segunda vez que tento te colocar no papel, mas as palavras - como um dia me ensinou- são traiçoeiras. Aos poucos e cuidadosamente venho lendo as cartas que um dia nos pertenceu. Penso se a vida nos calejou e esta beleza e fé no futuro ainda existem ou as gastamos cedo demais nos nossos devaneios. Você era grande defensor das palavras como são. Os textos são o que te trouxeram aqui, mesmo que entre versos bobos, se orgulhe.  Dentro das minhas palavras, você era importante. Enrolada em seus versos, eu era gigante. E sempre nos bastamos assim. No meio de nossas epifanias, te decretei O Tradutor. Capaz de trazer a tona os sentimentos inomináveis e indomáveis, com tal simplicidade que só possui quem tem um dom. A sua escrita era esse dom que agora está adormecido. 
"Realmente existem as coisas bobas que são extremamente necessárias para seguirmos com nossa vida. Acho isso tão engraçado: a necessidade que temos de algo bobo."
Nos descobrimos fãs da simplicidade. Era fácil te contar meus sonhos, dos impossíveis aos fracassados, sem o peso da perda, da renúncia ou com o sentimento de derrota. Nos acolhíamos entre os acertos e os erros, no entendimento da vida ser este movimento. Mesmo que, de olhos inchados muita das vezes, não soubéssemos o que esperar do futuro, confiar nos bastava. Era bonito de se ver como a dança das nossas palavras se transformavam hora em afago, hora em espada nas costas nos obrigando a caminhar mesmo que fosse na prancha. 
Quando eu almejava as conquistas, você me lembrava de ser feliz. As dores pareciam tão pequenas diante do universo de possibilidades em minha mão. Tenho agora esse peito cheio de sonhos e a vontade de conhecer o mundo, sem a urgência de ser algo além do que já sou. 
Não é a vida que nos engole. Somos nós que engolimos a vida. Vamos nos agarrando aos detalhes, em saber que o amor ainda está vivo nas pessoas, nos gestos e nas nossas trocas. Eu respiro, tentando me lembrar do nosso segredo. Viver um dia de cada vez sempre foi muito dificil para quem tinha o universo a ser descoberto. "Não atropele o futuro, afinal, precisamos dele vivo".
Você tem alma e nome de quem vai dominar o mundo com as palavras. De verdade. Escrever é o meu maior vício. Meu remédio. E espero que seja assim com você. Aliás, espero que seja mais profundo. 
Eu também não gostava das coisas que eu escrevia, e confesso que ainda não gosto. É, eu detesto: acho péssimo em todos os sentidos, mas eu perdi o medo de mostrar meu nome e meus textos porque eu passei a escrever pra mim e não para os outros. É melhor explodir em palavras do que implodir e escrever o que os outros querem e só. Eu sou confusa. Só preciso te alertar para você não ligar muito para as construções gramaticais, escreva sem dó. Esta é a sua vingança. SE MOSTRE. 
O meu pulmão respira o mundo e ainda há muitas verdades não descobertas a serem ditas.

Silêncio.

Estava com saudades das nossas cartas instantâneas. Nos declaramos utópicos em nossa relação. 
Obrigada por acreditar em mim. Obrigada por ter razão na fé. Obrigada por ter compartilhado suas palavras comigo, dividido meu lugar de azuis primaveris, por de súbito termos nos reconhecido e acolhido. 

Então eu me orgulho. Orgulho de me permitir textos muitas vezes sem simetria, algumas vezes sem concordância. Eu me permito a entrega. Obrigada a você.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

felicidade sóbria

fazia tempo que não sentia os pensamentos correrem livres entre meus olhos, por dentro de minhas narinas, passando pela minha boca, atravess...