Pesquisei sobre a saudade e nada encontrei dentro de mim senão palavras gastas. Para os Maias a escrita era um presente divino e há alguns anos atrás eu refutaria a sabedoria por tamanha dor que trazia nestes dedos calejados. Faz meses que descobri na escrita o sossego e me sinto escolhida por deus. Descobri que meu lugar de azuis primaveris residia em você e em mim e eu nunca entendi muito bem a sua falta crônica. Até agora.
Quando você se foi, levou consigo meu refúgio e um pedaço de
mim. Me senti vazia por tanto tempo antes de entender que na relação não se
doa, nem se completa. Se entrega por inteiro e se troca.
Trocam-se certezas, verdades, orgulhos, lágrimas, palavras e
risos soltos que preenchem o espaço mesmo que sem dentes. Então misturam-se as
cores, os cheiros, os sons. Da tevê chiando com o cachorro latindo, do tempero
com a hortelã do quintal, do azul desbotado na parede com o rosa da coberta
felpuda.
De todas as palavras que achei precisar escrever e de todas
as lágrimas que achei precisar chorar, me surpreende que ambas me levem a você.
Mas é uma surpresa tão boa. Preciso te contar que, com muito custo e um ritmo
que tenho tentado respeitar, tenho descoberto meu tempo de ser o que eu preciso
e que a grande revolução que o mundo precisa começa em querer. (mas você já
sabia disso né?)
Tenho aprendido a acolher o corpo que habito e enxergar nele
a beleza de ser. Foi este o corpo que me permitiu te abraçar forte e deitar em
seu colo e comer sua comida. Este é o corpo que guarda cada lembrança sua. Este
é o corpo que me trouxe aqui e vai me levar além. Este é o corpo que me permite viver uma vida
de dores e anseios, de amores e descobertas diárias. Como o pôr do sol por trás
dos prédios que me faz parar no meio do tráfego para apreciar cada detalhe.
No lugar que costumava te ver, mais de mil sóis nasceram
depois que a saudade encravou na pele. E hoje eu entendo porquê pinto a vida em
amarelo.
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