Sem delongas

A minha ansiedade matou o girassol.
Foram dez dias paralisada pelo medo irracional de viver.
Viver é perigoso. Por isso matei meu girassol.
Vicent viveu por muito tempo e decidiu que girassóis seriam sua marca no mundo. Pintados ao longo dos seus últimos seis anos de vida. Os girassóis imortais de Van Gogh.
Não conheci a pessoa, mas leio sobre o pintor e penso se é justo dividir o ser em dois. Então me lembro que somos tantos, o tempo todo.
Passei dez dias paralisada.
Eu queria escrever sobre e acabei por falar do luto. É que na busca pelo movimento me lembrei... me lembrei do lugar no qual o medo não habitava. Nas paredes azuis, na telha de amianto, no barulho da fritura na cozinha.
Ontem uma mulher morreu.
Mais uma mulher morta pelo sistema.
O medo paralisa a tantas.
Um dia escrevi que viver me faz perder a respiração e, somente hoje, entendo que estar viva não é sobre saber, é sobre intuição.
Estive por dez dias remoendo o passado e presa no futuro.
Me cobrando visitar o presente para dar conta de todas as demandas do mundo que me cerca.
É custoso querer ser saudável em uma sociedade doente.
Havia muito tempo que as palavras não me escorregavam pelos dedos com a delicadeza do rasgar do papel pela caneta.
É que eu precisei matar girassóis para enxergar meus sentimentos.
Havia muito tempo, também, que eu não escrevia sem transbordar pelos olhos.
Mas havia tanto tempo que tanta coisa...
Desperto consciente, tentando me apegar a sutileza que viver é, como são os girassóis de Van Gogh.
Apesar de perigoso... viver é azul e amarelo e pinceladas e pausas e longos anos e se reinventar e se permitir.
Viver é estar para ser, mesmo que seja perigoso.

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