Tatuagem

Foi quando vi o desenho de Ana. Não. Foi quando desejei aquele desenho em minha pele pois ele era o retrato dos lugares que habito junto dos sentimentos. As janelas da alma. Ana ainda não sabia que me escrevia e me desenhava naquele papel de gramatura espessa como era meu coração também.

Ana pintava, muitas vezes sem contorno, pintava as folhas e janelas e azuis e amarelos como um dia entendi ser minha vida dentro de mim. O lugar de azuis primaveris. Que na verdade era a casa de vovó de parede azul desbotada em sábados ensolarados e quentes demais por debaixo daquela telha de amianto.

Foi neste espaço azul e quente e amarelo e florido - mesmo que nem sempre - que as palavras encontravam paz em mim. Tanta paz que me era assustadora a ideia de permanecer lá por mais que poucas horas. Por isso nunca dormi no meu refúgio mais que sagrado. Por um medo visceral de tudo ir mal demais lá fora por estar tudo bem demais dentro de mim.

Foi encarando estas janelas que entendi a urgência em ter seus traços em minha pele. Porque eles não poderiam pertencer a mais ninguém.

E mesmo assim ainda me faltava a coragem de abraçar as memórias como o que são: passageiras.

Não é que eu precise de muito para me recordar do cheiro da terra com pitangas maduras e o barulho dos cachorros na rua, mas é que de ansiosa que nasci, sei que qualquer dia precisarei de um esforço maior e maior e maior para não me esquecer das ruas esburacadas de terra vermelha pela qual eu passava, do rádio no carro tocando aquela fita, do cheiro do jornal e tinta e das palavras cruzadas preenchidas

Então é urgente que Ana marque minha pele com as memórias que são minhas e ela talvez nem saiba.

É que talvez essas memórias sejam dela também.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

felicidade sóbria

fazia tempo que não sentia os pensamentos correrem livres entre meus olhos, por dentro de minhas narinas, passando pela minha boca, atravess...