Epifanias

Passando pelos acasos da vida, me deparei com uma foto sua até me ocorrer o pensamento aflitivo de que não te conheço mais. Queria celebrar, mas a verdade veio como o susto que uma criança prega. Eu não me surpreendo de verdade, mas algo dentro de mim muda para sempre porque sei que tudo aqui fora tem mudado, também. Eu, que sempre fui ansiosa por todas os movimentos que poderia fazer, ansiando pelo desconhecido, me assustei com um susto que fez movimentar cada músculo do rosto ao se arquear sobrancelha e se abrir a boca para te convencer que aquele realmente foi um momento de súbito despreparo. Em seguida rio. E este sentimento entre o breve pânico e os dentes à mostra é o que a vida tem sido quando me recordo que os dias tem passado.

Eu andei pensando em todos aqueles pequenos laços frágeis que nos ligava. Entre a hora do almoço e expediente de trabalho em que você largava os livros para me contar das coisas banais que ocorreram no seu final de semana e das quais eu poderia perguntar uma infinidade de detalhes. Talvez seja aquela amizade que Clarice descreveu. É que não há nada a se compartilhar além de brevidades. Então, porque sinto esse buraco se abrir em meu peito ao pensar que perdemos a intimidade de se compartilhar todas as coisas banais que nos cercam e em estarmos confortáveis em nosso silêncio? Não creio que hajam respostas a esta pergunta que tange o encontro das nossas existências.

É que há tanto por aí que um dia foi intrínseco a mim e que hoje esbarraria na rua sem reconhecer e tenho me assustado com o passar dos dias e o peso das responsabilidades e as escolhas feitas e não feitas me questionando como vim parar onde estou se nunca sonhei em estar aqui. É que viver tem dessas coisas. Um quê de inesperado. Um quê de planejado. Sigo tentando reconhecer a minha participação na minha própria existência assumindo riscos das escolhas que faço e recolhendo o que há de bom das escolhas que me são impostas. Talvez o livre arbítrio não seja sobre estar jogada neste planeta à própria sorte. Talvez o livre arbítrio seja sobre escolher o que fazer com aquilo que não posso controlar.

Oscilo entre o prazer e o terror das relações. Quando desesperadamente preciso ouvir e contar sobre coisas banais do dia a dia, pois isso revela a maior intimidade que duas pessoas podem compartilhar onde não há nada de grandioso a se conhecer, mas sim tatear o outro nas frestas de delicadeza que é ser banal. É aí que mora a maior entrega que se pode almejar de uma relação, ao se dividir sem se preocupar em ser. Oscilo entre o prazer e o terror das relações. Quando furtivamente me escondo de qualquer pessoa que possa tentar me roubar de mim quando, antes que eu perceba, tenha entregado tudo que possuo. 

É que na verdade, a existência humana é uma borboleta Kallima inachus que as vezes precisa recolher todas as suas cores em tons mortos para sobreviver na natureza.


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