Quinta feira, um feriado de 2021
Queria roubar suas palavras para mim. Sequestrar estes sentimentos tão bem delineados entre seus versos.
Faz tempo que olho para fora, mas não enxergo. Havia tanto a se ajeitar por aqui.
Os ipês voltaram a florir, a
inexorável marca que nos alerta que o tempo tem passado por nós atravessando
corpo e alma. As vezes sinto vontade de acender um cigarro e deixar a fumaça vagarosa
preencher o ambiente, como se a vida fosse o final de um drama em que nada resta
a ser feito senão acendê-lo no meio de todas as perdas. Talvez, só
talvez, por isso eu te fitasse aflita enquanto o acendia encarando a
janela escura pelo céu sem estrelas. Eu recusava qualquer trago. Recusava mais
por um medo primitivo de começar a te entender e assim te perdoar por tudo, até
o que ainda não havia causado. Hoje, me pego encarando este papel e pensando em como aceitaria um trago seu para que nossas bocas pudessem
compartilhar qualquer coisa que fosse comum, porque mesmo sem nunca ter fumado
com você, hoje eu sinto a vontade de acender um cigarro como se aceitasse o que
a vida impõe, como o fim triste de um filme antigo.
Decerto você se assustaria e lentamente viraria a cabeça
para me encarar desdenhando dos meus braços estendidos e dedos separados
esperando seus braços se estenderem também. Pensando sobre o que aconteceria se
nossos dedos se encontrassem naquela troca. Se percorreria aquele choque que
nos proibimos de sentir para que pudéssemos estar juntos. Talvez... depois de
ver em meus olhos a certeza das minhas escolhas, você me entregaria o cigarro,
pois só a mim cabe viver a vida que me foi imposta.
O som alto da orquestra que eram nossos corações naquela
sala cheia de nada e ruas cheias de luzes arrastadas entre as curvas daquele
cruzamento.
É no mistério que se guardam as verdades e as delicadezas do amor e da morte.
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