Sou esta mulher narcisa. Procurando sempre nas palavras dos
outros as frestas onde vou me caber. Achava que assim encontraria o que há de único
em mim, mas a verdade é que eu procuro o que há de comum em todo o mundo. Tenho
me surpreendido com o choro que vem como um assombro quando não estou atenta
aos meus pensamentos e deixo que eles corram soltos por lugares que ainda não
estou pronta para visitar. Os olhos já não incham e há uma sincera ira branda
no rubor do meu nariz que vive me lembrando que não há no mundo o controle que
procuro.
Penso muito em como minha tia estaria agora organizando absolutamente
tudo e em como estaríamos reclamando entre risadas. Penso muito também em como
perdoar, porque foram humano quando eu precisava que fossem pai. Como os dias
tem passado veloz e os meses ainda sim se arrastam. Li Will – abril de 2015 –
porque Will sempre foi apocalíptico nos meus sentimentos, assim como os meses
de abril que findam e brotam tantas coisas ora nova ora usadas.
Como andava dizendo, Will escreveu em abril de 2015: “Há
um momento supremo na longa escalada dum alpinista rumo ao topo: a queda.” Mas
é que eu li em abril de 2022 e desnorteada e enganada pelas minhas memórias,
sinto como se fosse a primeira vez que me confronto com Will. Como se eu nunca
tivesse escrito sobre Will e chorado com Will.
Cá estou eu. Cíclica. Mais um outono e inverno e primavera e
verão e outono.
Li Will, porque não tive coragem para te ler. Esta carta aqui
endereçada a tantos porque eu preciso escrever sobre todos vocês. Os fantasmas
que me confortam.
Penso e penso e penso sobre o passado. Eu sei porquê. Mas
finjo mistério para ser surpreendida com a grande revelação. O calor da pele, a
grandeza dos olhos, de quem se descobre tudo pela primeira vez, de novo.
Não há nada de novo nesse texto, porque não há nada de novo
em mim. Ando tediosa, apática, desligada, arrastada pelo cotidiano, aguardando
o momento da maré me deixar em uma areia qualquer depois de ser orquestrada por uma
lua também qualquer.
Existe o poder. Eu sei que existe. Eu quero que exista.
Nenhum comentário:
Postar um comentário