Demorei a abrir o computador. Brigava internamente com o desejo de escrever e a vontade de sentir. 


Ando tentando estar atenta para enxergar as respostas para todas as perguntas que desatei a fazer. Como aprender a ouvir a ausência do outro? Reconheço o anseio no meu peito. Eu não sou as pessoas que partem. Sou feita das pessoas que permanecem. 

A chuva bate na janela e os pingos mancham a colcha sobre a cama. Não há urgência em impedir que a tempestade rasgue o tempo e acinzente tudo. Enquanto isso, vasculho o peito aberto, o coração chagásico, este rosto que nada reflete procurando o que pesa dentro de mim. O desejo não é algo que se convence e tenho tentado ouvir todas as nuances que a falta tem a me dizer. É curioso te dizer que não escrevo tanto, porque sinto muito e dou nome às coisas que aprendo a reconhecer. 

É que todo mundo é feito de completude e de vazio e a sabedoria reside em saber quais são as ausências que são tão nossas a ponto de serem parte importante de nós. 

Eu sei que gostaria de ter feito muito diferente, mas fazer de outra maneira não me traria aqui, onde reconheço os cômodos vazios do meu coração sem a ânsia de tentar preenchê-los. Eu te contei com olhos marejados que não haviam culpas e chorei calada ao te permitir acessar estes lugares cheios de nada com os quais lutei por muito tempo.


Aprendo a descobrir o mundo com o coração, aberta ao acaso de ser quem sou e dar conta do que consigo. Me permitindo sentir os incômodos, deixando que eles se demorem o tempo necessário antes de partir. E eu sinto, sinto, sinto, sinto. As ausências, as presenças, os medos, os desejos. Como não ser corroída pelo anseio de ser outra coisa do que se é?

Elaboro os lutos. De tudo que não pude ser. De tudo que não pude viver. Das escolhas dos outros em não permanecer.

Elaboro o amor. Por tudo que dei conta de fazer. Por tudo que me permiti desfazer. Das escolhas em permanecer onde me cabia por inteiro.

Não espero estar pronta para nada. Me preparar para a vida me impede de viver.

Descubro como se constrói, colocando tijolos.


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