Para meu amor,

 de quem sou, daqui de 2023.


Eu não espero que você me ame como algum dia amou. Eu acredito que todo amor seja o primeiro e por isso, único. Eu espero que cê me ame desse jeito de mistério. Mistério esse sem grandiosidade, mas de quem descobre um cômodo novo quando se acende uma luz, quando se ouve uma música gasta e se descobre algo novo por dentro, sabe?

Eu não quero que o passado suma, nem que as dores passem, nem que o vivido se desfaça. Se foram os amores, as dores, o vivido, o sentido que nos fez trilhar o caminho que trilhamos e cruzar os dias por um momento e escolhermos cruzar mais e mais horas destes dias.

Eu não espero ser tudo. Nem ser precisada. 


Eu quero ser pensada com carinho e considerada pra planejar junto. Quero sentir a saudade mansinha no peito se preciso for afastarmos, quero aguardar a chegada nestes momentos, também. Quero confiar, de peito tranquilo, na ética da relação. Poder trazer os anseios que pesam o pulmão e que incomodam pra cuidarmos juntos do lar que construímos no peito um do outro. 


Quero ser livre e te permitir ser livre também, porque sabemos que nunca faltará tato com os sentimentos que escolhemos nutrir.


Eu demorei tempo demais pra escrever mansinho o que afligia meu coração. Esperei tempo demais as semânticas que jamais virão, porque o amor que expande em mim é amor de mesa farta, de coisa simples que alimenta tudo. 


Eu demorei tempo demais pra dizer que quando amar, amarei com quase tudo de mim. E eu espero ser amada com quase tudo de você. Que eu espero ser acolhida naquilo que ainda não consigo curar, como espero conseguir acolher você naquilo que ainda dói. Que o trato irrevogável seja o cuidado com os afetos e que nunca nos falte o carinho, principalmente nos momentos em que mais for difícil estar de peito aberto. 


Para plantar os dias juntos, para dividir as regas, para preparar cafés, para se irritar no caminho, para rir nos desencontros, para redescobrir como se reencontrar.


Que amor nos seja uma ética de vida, quando a gente se escolher se amar.


Esse é um trato que faço comigo, neste amor que cultivo, para que te amar não seja me desfazer de mim.


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