Cartas queimadas II


Você me disse que eu estava irredutível e eu lhe gritei que você era o egoísmo. Proferi lágrimas feito facas e palavras feito lanças, com todo o cuidado que um circense tem de não machucar a pessoa escolhida para o espetáculo.

Então pisco, estou em você, como se nunca tivesse saído do foco da sua retina e você me engole com o olhar de quem observa um animal ferido; com pena suficiente para se compadecer, mas com uma certa distância para não se ferir. Dentro da tua lona, itinerante, quisera eu ser a bailarina que encanta ou o palhaço que sai de um fusca e arranca gargalhadas, quem me dera. Nos teus olhos vejo meu reflexo, do animal preso, enjaulado, de olhos agoniantes, de voz sumida, que olha feroz e triste, como alguém que anseia por consolo, mas tem medo suficiente do que cativa.

Veja bem, se a vida não é uma ironia, seria o que? Você me diz que a vida é consequência, como quem acredita muito piamente no acaso. Te desdenho, quem em pelo século XXI me diz de acaso. A história é cíclica, como os planetas são em torno do sol e o sol de si mesmo. Você me corrige: é elíptica. Qual a diferença entre o caminho mais comprido e o mais curto, se todos acabam no ponto de início? E você, por fim, cansado, exaurido da estar presente, me responde: toda.

Acendo um cigarro no caminho (de quem?), paro num boteco qualquer, compro um café que está há tempo demais ali. O caminho que percorrem os astros determina a influência que eles têm, traço rotas imaginando qual seria a melhor pra me levar a mim. Desabo.

Porque sempre tenho que ouvir suas lonjuras?

Nenhum comentário:

Postar um comentário

felicidade sóbria

fazia tempo que não sentia os pensamentos correrem livres entre meus olhos, por dentro de minhas narinas, passando pela minha boca, atravess...