Você me disse que eu estava irredutível e eu lhe gritei que
você era o egoísmo. Proferi lágrimas feito facas e palavras feito lanças, com
todo o cuidado que um circense tem de não machucar a pessoa escolhida para o
espetáculo.
Então pisco, estou em você, como se nunca tivesse saído do
foco da sua retina e você me engole com o olhar de quem observa um animal
ferido; com pena suficiente para se compadecer, mas com uma certa distância para
não se ferir. Dentro da tua lona, itinerante, quisera eu ser a bailarina que
encanta ou o palhaço que sai de um fusca e arranca gargalhadas, quem me dera.
Nos teus olhos vejo meu reflexo, do animal preso, enjaulado, de olhos
agoniantes, de voz sumida, que olha feroz e triste, como alguém que anseia por
consolo, mas tem medo suficiente do que cativa.
Veja bem, se a vida não é uma ironia, seria o que? Você me
diz que a vida é consequência, como quem acredita muito piamente no acaso. Te
desdenho, quem em pelo século XXI me diz de acaso. A história é cíclica, como
os planetas são em torno do sol e o sol de si mesmo. Você me corrige: é elíptica.
Qual a diferença entre o caminho mais comprido e o mais curto, se todos acabam
no ponto de início? E você, por fim, cansado, exaurido da estar presente, me
responde: toda.
Acendo um cigarro no caminho (de quem?), paro num boteco
qualquer, compro um café que está há tempo demais ali. O caminho que percorrem
os astros determina a influência que eles têm, traço rotas imaginando qual
seria a melhor pra me levar a mim. Desabo.
Porque sempre tenho que ouvir suas lonjuras?
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