24 de maio de 2020


 Fim de noite.

Deveria estar me preparando para dormir, mas venho me entalando com essas palavras há algum tempo em minha garganta. Não sabia como começar um texto sobre você, muito menos quais palavras precisava colocar nele para que você se enxergasse. Por mais que meus textos sejam meus, as vezes eles acabam por ser de outras pessoas também. 

Você carrega consigo algumas palavras bonitas e as que me entregou de presente de aniversário me atravessaram feito lança e me fizeram ser outra.

Tenho tomado muito café e feito pouco por mim mesma. Agora me pergunto se levei tanto tempo para te escrever por medo das minhas palavras ou por simplesmente me recusar a fazer algo que me faça respirar. As palavras são feito ar: as vezes me sufocam e me desesperam e muitas outras me aliviam e me botam nos eixos.
Enfim... tenho feito muito café e me cobrado muito também. Me pergunto as vezes o que tem feito? Tem tomado muito café? Editado suas fotos? Pensado no futuro e se, em algum momento, iremos mesmo nos encontrar?
Uma grande parte do tempo não penso em você, preciso te confessar. Mas quando demando esse tempo pensando, você ocupa minha mente como um todo e aí preciso parar tudo que eu estou fazendo pra escutar uma música que eu gostaria de mandar pra você.
Mas eu tenho medo sabe. Do que esse distanciamento tem feito com as relações ou de estar usando esse período para justificar suas ausências. Não me sinto no direito de te falar nada além do que não foi dito. Porque o oculto nos diz muita coisa, também.
Hoje eu entendo: as palavras ditas não me bastariam para chegar até você. Eu precisava te escrever. Precisava te colocar em um papel e, assim, me colocar vulnerável. Afinal, é na vulnerabilidade que tenho encontrado essa nova pessoa que sou.
As possibilidades assustam e tenho ficado presa no que projeto. Os dias andam mais frios e minhas mãos também. Aos poucos vou desistindo e perco a pressa em decifrar as coisas que não são feitas para serem decifradas.
Escrevi há algum tempo que o amor está nos detalhes e hoje complemento o amor está nos detalhes que parecem insignificantes para muitos. No detalhe dos dedos juntos na marcha do carro, na risada no meio da cozinha com roupa largada, em dividir o chá, preparar o café, de vez em quando ceder na música que toca no carro, no lanche de domingo a noite, colocar a cerveja pra gelar. O amor estar na tranquilidade em não se preocupar se está sendo amado ou não. O amor está em não se preocupar em ser amado.
Não me arrependo dos amores efêmeros, nem me envergonho dos romances do caminho. Te confesso: nem a mim eu soube como amar ainda.

A cidade, daqui do quarto, parece um borrão distante demais com todo seu caos e falsa empatia. Acho que é por isso que meu home office tem sido tão difícil. Parece que o mundo invade minha casa em cada email trocado e que a qualquer momento eu não vou estar mais segura. A hostilidade dos que não conseguem levantar os olhos da própria barriga sempre me assustou, mas agora me apavora. Eu tento respirar no ritmo certo e me manter lúcida para não surtar em meio a banalização das mortes. Como as pessoas não conseguem já nascer entendendo que qualquer vida precisa importar?

Você tem me ensinado a ser eu mesma no momento em que quero ser outra pra tentar nos fazer mais próximos. Daí eu penso como gosto de você sendo você e como quero me amar quando sou eu. Você tem me ajudado a escutar mais os outros também, coisa que é difícil demais pra quem está acostumada com as palavras que não dormem.
Tenho recusado seguir todas as direções já conhecidas. O desvendado já não me interessa. Anseio muito pelo frio da barriga que caminhos não escritos podem trazer.
Em algum momento desse encontro nos descobrimos muito parecidos, apesar de sempre nos sentirmos distantes. 
O que você traz à tona em mim? É o que me pergunto toda vez que sinto sua falta. 

Quando tive coragem, escrevi. Feito asas de Ícaro, me libertei.

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