Sonhei com você essa noite. Depois de precisar colocar para
fora cada palavra que por tempo demais cresceu dentro de mim até não caber.
Havia algum tempo que eu não sentia prazer nos livros. Em virar uma noite
acordada, folheando página por página como se eu pudesse devorar aqueles versos
e fazê-los meu. Daí eu li suas palavras e tudo dentro de mim rompeu.
É difícil, nesse mundo, estar focado em algo que te faz
relaxar ao invés de te deixar alerta. Mas hoje eu li suas palavras sem língua contra
o céu da boca, mandíbula travada e dor nas costas.
Sabe, há muito não leio palavras assim, que de indomáveis –
por se permitirem livres - se tornaram calmaria. E eu leio cada trecho seu de
peito aquecido e há muito não leio palavras-lenha assim.
Andei refletindo nesse tempo de dormência e cheguei a conclusão de que a gente tem
muito medo de compartilhar o que tem dentro da gente, mas quando escreve acaba
por descobrir que o que tem dentro da gente tem dentro de muita gente também e
é isso que descubro toda vez que te leio.
Como você, quando mais nova, era fielmente adepta ao desamor,
toda minha fé era voltada a desacreditar neste sentimento que tanto doía.
(Os adolescentes precisam sempre sentir tudo até a exaustão)
Como você, hoje entendo que o amor tem muitas faces e que
são todas, de alguma forma, bonitas demais para serem desacreditadas e que
independem dos céticos para existir. Assim como Deus, que para muitas pessoas
existe de forma onipresente e mesmo que você não acredite ainda responde “amém”
quando sua avó te diz: fica com Deus. Porque isso é cuidado.
Então, te escrevendo eu descubro: que deus é amor.
Acho muita loucura em como as palavras unem as pessoas. Eu,
daqui de tão longe, vou lendo suas crônicas e internalizando-as como se pudessem
ser minhas (e poderiam se crônicas não me fossem tão complicadas de se colocar
em um papel).
Então sigo te mandando essas cartas que não possuem destino
algum. Logo, não se preocupe em responder o que nunca precisou de resposta. Entretanto te alerto: não responder não vai
impedir que minhas cartas continuem chegando.
O que me resta é te agradecer por dividir sua paz e seu
caos e te pedir: por favor, esvazie sua caixa de correios para que minhas cartas possam continuar chegando.
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