Todo dia olho para o mesmo ipê abismada com suas flores rosas em buquês cobrindo apenas metade da copa. Todo dia, encarando o mesmo ipê eu penso como seria tirar essa foto e como eu a editaria para compartilhar com vocês o que de bonito vejo no meu dia a dia e que está sempre ofuscado por toda a reclamação que faz com que a vida as vezes pareça difícil demais de ser levada.
Eu reclamo muito, eu sei. Tenho melhorado isso também. Tento mentalizar que as mudanças ocorrem gradualmente feito... bem, feito qualquer coisa que ocorre na natureza: a estalactite não estava lá há, sei lá, 300 anos atrás e hoje a vemos - quanto tempo será que demora para uma estalactite formar? - formosa em sua construção.
Enfim, voltando aos Ipês. Ipês são árvores com flores de inverno e eu fico fascinada. Primeiro, porque as flores respeitam o tempo umas das outras florindo gradualmente. Segundo, porque elas estão em meio a um cenário cinza e vazio de plantas, sendo felizes sendo floridas e coloridas (se houver algum botânico lendo esse texto, por favor, não me corrija! Não quero estar certa sobre a biologia por trás dos Ipês, quero ser poética) sem se preocupar se não se encaixam no cenário proposto (que se foda a primavera!).
Me atordoa, também, toda vez que vejo ipês florindo fora de época. Eu esperto um ano inteiro para acordar no frio, vestir meu casaco, assoprar as mãos pra ver se esquenta e observar os ipês plantados no caminho e como eles fazem meu trajeto ser novo à medida que avançam os meses. De repente, meio de maio (que frase engraçadinha) me deparo com um ipê afrontoso no meio do pátio do trabalho, florido, feito um spoiler de um filme que eu aguardei muito pela estreia (existe palavra brasileira para spoiler? Eu não consegui pensar em nenhuma).
Comecei esse texto para falar qualquer coisa sobre a preguiça e a dificuldade de fazer algo por mais que eu queria muito, como tirar a foto de um ipê que me incomoda todo dia. Se você nunca precisou domar seus pensamentos, não entenderá do que falo aqui. Diferente de qualquer outra coisa que acontece na natureza – como a formação de uma falésia – meus pensamentos se formam na velocidade da luz e se vão também. Se em algum momento quis reclamar sobre a dificuldade de tirar do imaginário minhas vontades, acabo por reclamar que reclamo. Talvez seja um aviso do meu subconsciente que esta seja mais uma forma de me trair. Talvez não.
Pensei em me desculpar pelas frases longas e por não utilizar virgulas com todos os excessos tal qual amo fazer. Tentei acompanhar a velocidade dos meus pensamentos e agora possuo dedos cansados demais, olhos desfocados e um cansaço genuíno.
Ao final, me recuso a reclamar do ipê que floriu antes do tempo certo. Afinal, o tempo é invenção humana para marcar a história. Os ipês irão florir no momento de florir e eu vou ser grata pela surpresa e por entender que o tempo é apenas uma medida para qual a natureza está pouco se lixando.


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